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quarta-feira, 25 de janeiro de 2023

 O NATAL ACONTECEU

Já fora jovem, bela e feliz. Fora neta, filha, mãe, amara perdidamente e fora amada. Tivera casa, marido e dois filhos que eram a luz dos seus olhos, amigos, um emprego de que gostava e onde era reconhecido o seu trabalho.
Fora feliz, muito feliz. Teve tudo que uma mulher tem direito. Mas há horas que surgem na vida da gente e, como que por artes sobrenaturais, tudo transformam de um dia para o outro: horas tecidas pelo diabo. E aconteceram na sua vida.
Deixou-se levar pelo seu coração aventureiro, na figura de um jovem garboso, atlético, de boas falas, que entrou na sua vida de forma inesperada. Queimou-lhe o coração no primeiro momento em que os seus olhares, fugaz e inadvertidamente se encontraram, ao se cruzarem na rua. Dias mais tarde, para grande espanto seu, encontrou-o no escritório onde trabalhava como Secretária: um engenheiro acabado de contratar pela empresa. 
Tentou resistir ferozmente à chama que a inflamava por dentro, como labareda acesa em inflamada combustão, cada vez que os seus olhares se cruzavam ou ouvia o timbre da sua voz. Começou a fazer parte da sua vida. Em qualquer momento do dia-a-dia, longe ou perto dele, tinha-o presente em si. E, um dia, caíram nos braços um do outro, plenos de arrebatamento e paixão.
Que fazer se os dois eram consumidos pelo mesmo fogo? Não resistiram. Ele, um jovem de 35 anos, divorciado, sem compromissos sentimentais. 
Ela, uma mulher de quase 50, mãe de um jovem de 19 anos e outro de 22, com um marido bondoso, amigo e presente. Porém a força que a arrebatava para aquele amor louco era mais poderosa que tudo o resto. 
Largou tudo. 
Largaram tudo e partiram nos braços um do outro de mochila às costas, como dois jovens adolescentes vivendo o seu primeiro grande amor. 
Viajaram pelo mundo fazendo um biscate aqui, outro ali (o que aparecia) para sobreviverem, e foram, assim, correndo mundo, num arrebatamento apaixonado e embriagador.
Assim se passaram três anos nesse idílio apaixonado e sem compromissos. 
Até que, em Luanda, decidiram procurar um emprego condicente com as formações académicas de cada um para, enfim, aquietarem um pouco essa fúria de viver, essa adrenalina viciante que os levava a correr mundo, e arranjarem um canto a que pudessem chamar seu e viver o seu amor de forma mais tradicional.
Luanda estava num momento de grande expansão e não lhes foi difícil arranjar emprego numa empresa de construção civil, portuguesa, que, na época, operava em Angola, que lhes deu também direito a casa. Luís como engenheiro e ela como secretária. 
Porém a vivência do amor arrebatado que os ligava não se coadunava com a monotonia do dia-a-dia de uma vida a dois, com horários de trabalho estabelecidos, colegas, viagens, reuniões após o horário de trabalho, e todo o ramerrame que todo o dia-a-dia acarreta. E em breve começaram as discussões, os choques de personalidade, as dúvidas, os ciúmes e todos os males que daí advêm.
A grande paixão que os ligava não se tinha estruturado o suficiente e transmutado no tal sentimento que une e perdura para além de todas as catástrofes. E tudo ruiu poucos anos depois como um baralho de cartas. 
Separaram-se. 
Ficou emocionalmente desfeita e entrou, então, num tipo de vida que não conhecia e de cujos perigos não soube defender-se. Perdeu o emprego e acabou no trapo humano que agora é: uma velha com quase setenta anos, a vadiar pelas ruas, sem eira nem beira, há mais de cinco anos. A comer e a vestir o que lhe dão e a dormir nos vãos das escadas ou nos bancos dos jardins.
Ana é açoitada por estes pensamentos enquanto deambula pela ruas de Lisboa cheias de música, de luzes e de ornamentações de Natal, e pejadas de gentes a cruzarem-se, apressadas, de sacolas na mão carregadas de embrulhos, entrando e saindo das lojas vistosas inundadas de luz.
Também ela já viveu esta azáfama. Também ela já entrou apressada nas lojas para comprar os presentes de Natal para os seus entes queridos. 
O Natal era a quadra do ano de que mais gostava. Era uma época de muita alegria, tanto em solteira como depois de casada. E a Noite de Consoada tinha, para si, uma magia especial, especialmente depois de nascerem os filhos.
Nos primeiros anos de casada era passada ora em casa dos pais ora na dos sogros; mas, após o nascimento das crianças, quando estas passaram a ter algum entendimento, ela e o João conversaram com os pais e ficou decidido que o Dia de Consoada e o Dia de Natal seriam passados lá em casa. Os pais e os sogros vinham a sua casa, e eram dias mágicos para as crianças que tinham os avós naqueles dias inteiramente por sua conta, com as suas histórias, o seu afecto e os seus presentes! Eram dias iluminados pelo seu riso e pelos seus gritos de alegria, e perfumados pelo cheiro das filhoses, da aletria, das rabanadas, dos mexidos, que as mães confeccionavam na cozinha durante a tarde do dia 24, enquanto ela se ocupava do arranjo cuidado da sala, onde já piscavam as luzes do Presépio e da Árvore de Natal, junto à lareira crepitante. E, no Dia de Natal, mal o dia raiava no horizonte, as crianças corriam para junto do Presépio em busca dos presentes deixados pelo Menino Jesus. 
O dia começava animado pela alegria das crianças a abrirem os presentes entre os papéis metalizados espalhados pelo chão. 
Era tão feliz nesse tempo!
Agora… Agora nada tem. Não vive, arrasta-se pela vida. 
Nunca se atreveu a procurar o marido e os filhos depois de regressar de Luanda. Não teve coragem. Que lhes diria? Deixou-se ficar por Lisboa e por aí se tem arrastado.
Hoje, Dia de Consoada, seguiu na turba de outros que vivem como ela, e dirigiu-se ao Centro Porta Amiga onde é servido um jantar de natal para os que, como ela, se arrastam pelas ruas. 
Seguiu na fila e arranjou lugar em uma das grandes mesas que enchem o salão. Espera a sua vez de ser servida. 
Aproxima-se um homem com uma terrina fumegante e uma concha na mão:
- Mãe?!
Seus olhos, espantados, fitam um homem de uns quarenta e tal anos, que a olha incrédulo, tendo nas mãos uma grande terrina de sopa e uma concha. 
Olha-o e os seus olhos enchem-se de lágrimas:
- Meu filho! És tu, Jorge, meu filho!
As lágrimas correm-lhe em fila pelas faces enrugadas e macilentas.
O Natal acontecera.
Jeracina Gonçalves
Barcelos/Portugal/Dezembro 2022

In: Inovador