Tinha tudo o que algum
jovem de dezassete anos pode desejar.
Tinha amigos e amigas
com quem me divertia, e as raparigas achavam-me simpático, atencioso,
inteligente e camarada, e demonstravam bem o interesse que lhes despertava o
meu corpo bem desenvolvido e robustecido pelas largas braçadas ao longo da
piscina do Clube. Praticava natação desde os seis anos e tenho mesmo algumas
medalhas ganhas em vários concursos em que entrei em representação do meu
clube. Os olhares femininos das minhas jovens amigas e também os menos jovens perseguiam-me,
fitando o meu corpo atlético e bem desenvolvido com olhares apreciativos, o que
para um rapaz de dezassete anos é motivo de vaidade e dá grande impulso à sua
auto-estima, convenhamos. E eu sentia-me bem com isso. Era um excelente aluno e
tinha a firme convicção de poder entrar no tão desejado Curso de Medicina no próximo
ano. O meu pai é médico e a crença de que também o seria um dia acompanhava-me
desde a mais tenra idade. Em todas as fantasias de infância, que as crianças
costumam ter sobre o que serão “quando forem grandes”, não me lembro de ter
querido ser outra coisa. Sempre disse que queria ser médico como o meu pai. E
tudo se encaminhava para que assim acontecesse. Iria herdar-lhe o consultório e
a clientela. A vida tinha conduzido tudo no sentido que ambicionava e estava
feliz e agradecido com o que me oferecia, e esforçava-me por não desperdiçar
nada do que dela recebia. Recebia-o com agrado e dava-lhe seguimento. Sempre
fora um vencedor e iria continuar a sê-lo.
Mas, de repente, um
enorme buraco negro abriu-se em meu redor e tudo se alterou. E, da noite para o
dia, senti-me a resvalar pelas paredes de um enorme poço escuro, sem fundo, sem
conseguir descortinar o menor ponto de luz que me indicasse o caminho para a
saída, ou encontrar uma breve raiz na parede do poço onde pudesse fincar o pé e
impulsionar-me para a superfície, ou qualquer saliência a que pudesse agarrar-me
com as mãos e começar a trepar. Mas vou continuar a procurar uma saliência, um
ponto de apoio para sair deste poço fundo em que me encontro. Não posso deixar
que vença o meu ânimo, a minha força interior. Não vou desistir.
Tudo começou por uma
leve dor de cabeça, que rapidamente cresceu e me impediu de ir treinar naquele
dia 23 de Março. E, quando o João, meu amigo desde o Infantário, que mora na
minha rua, um pouco à frente, tocou a campainha, como sempre fazia quando íamos
treinar - à passagem, dava um toque na campainha e íamos juntos para o treino -,
disse-lhe que não estava muito bem-disposto e que não iria. De seguida telefonei
ao meu pai a contar-lhe o que sentia. “Toma um comprimido de Dafalgam”,
disse-me. Fiz imediatamente o que me aconselhou e meti-me na cama. Não estava mesmo
a sentir-me nada bem. E, apesar de medicado, a dor continuou persistente e cada
vez mais intensa e comecei a sentir-me nauseado e com uma enorme vontade de
vomitar. Quando o meu pai chegou, sentia-me mesmo bastante mal.
Sem mais demoras, levou-me
ao hospital onde fiz alguns exames. E a sentença chegou fria, cortante,
devastadora: tenho um tumor na cabeça.
Seguiram-se outros
exames, e outros, e outros, pedidos pelo Dr. Filipe, um neurocirurgião amigo do
meu pai, e a sentença confirmou-se: tenho um tumor maligno na cabeça.
Descobriu-o por acaso,
ouvindo uma conversa entre o meu pai e o Dr. Filipe que dizia: “as novidades
não são boas, Henrique. Atendendo ao sítio onde está localizado o tumor, há
poucas possibilidades de operar. Vamos tentar a sua sensibilidade à medicação.
Talvez possamos reduzi-lo e depois se verá.”
Não quis ouvir mais.
Não ouvi sequer a resposta do meu pai. Fugi dali.
“Não! Não é possível! Isto
não pode estar a acontecer-me! Não, não é comigo! Tem de haver algum engano! Eu
sou um rapaz forte, cheio de saúde, alegre, sempre bem-disposto. Só tenho
dezassete anos. Ainda não vivi. Nunca fiz mal a ninguém. Não! A vida não pode
pregar-me esta partida. Por que me castigaria assim, desta forma tão dura?
Tem-me mostrado o caminho do êxito, do sonho e agora atira-me para o abismo da
derrota mais fria, sem qualquer aviso prévio?”
Mas os exames são mesmo
meus. Aquela massa está mesmo na minha cabeça, a pressionar o meu cérebro, num
sítio inoperável, diz o neurocirurgião.
Porém o meu espírito
lutador, manifestou-se logo a seguir, impondo-me o dever de não me entregar ao
desespero.
Já estou a fazer
medicação, e não é fácil. Mas vou lutar. Vou colocar todas as células do meu
organismo a lutarem contra as malditas células cancerosas, que avançaram
sorrateiramente. O meu exército defensivo vai vencer esse exército traiçoeiro
que quer apoderar-se de mim. Vou usar os músculos do meu ânimo, e da minha
vontade para ajudar a medicação na luta contra o invasor, destruindo-o, tal
como sempre usei os músculos dos meus braços e de todo o meu corpo para cortar
as águas das piscinas onde lutei por uma medalha. Tenho algumas naquele quadro
pendurado do meu quarto. Elas serão o motor que me ajudará a vencer esta
medalha: a mais importante de todas: a medalha da vida.
E tu, vida madrasta,
que tanto me prometeste, atiras-me assim para o abismo sem qualquer esperança;
mas vou demonstrar-te que me deste a força necessária para vencer esta nova prova
que agora me colocas.
Vou vencer esta prova.
Vou vencer a medalha da vida!
Jeracina Gonçalves
