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quarta-feira, 3 de julho de 2019

UMA MANHÃ NA PRAIA

... emana uma toada ronronante e embaladora que me apetece e me relaxa - a toada terna de um mar amigo, bonacheirão: aproxima-se, afasta-se, aproxima-se, afasta-se, ritmada, contínua, muito calma, muito mansa…
Ao longe, pequenos barcos de pesca fazem a faina na grande planície líquida que se alarga para lá da linha do horizonte até à costa africana. Mais próximo, navegam dois barquinhos à vela.
Aconchegada sob a sombra protetora do guarda-sol de colmo, vou observando o vai e vem lento das águas mansas e a enorme praia de areia macia, a esta hora quase deserta. Contam-se pelos dedos das mãos as pessoas presentes: um casal joga badmington; duas crianças brincam na areia com os seus baldinhos coloridos: um verde e outro amarelo, e junto à linha de água, onde a areia é mais rija e torna o caminhar mais agradável, caminham mais ou menos apressadas algumas pessoas.
.....
Fecho os olhos.
Deitada na espreguiçadeira, deixo-me levar ao sabor do canto doce deste mar tranquilo, arrastada pela sua voz mansa, melodiosa para os meus ouvidos, que me transporta pelos caminhos da fantasia. Mergulho no interior do seu mundo silencioso, cheio de vida e de mistério, em busca de mitos perdidos no emaranhado dos tempos; vagueio por mundos de sonho. Mundos de fausto e de esplendor descritos por Platão nos seus diálogos Timeus e Crítias, dormindo o sono profundo nas entranhas do mar (pelo que deixou descrito o grande filósofo, não dormirão muito longe daqui); percorro salões magnificentes, por entre as suas colunas de jaspe e âmbar, de palácios habitados por seres semidivinos, aparentados com os deuses, cheios de sabedoria e de bondade. Seres que se deixaram enredar pelos “vícios” do poder e perdendo a virtude e as características divinas, atraíram a fúria dos deuses. No espaço de um dia e de uma noite de terramotos e inundações, pereceram para sempre sepultados nas profundezas deste mar que me enfeitiça.
Mitos perdidos no enredo dos tempos,
Engolidos por deuses em fúria, habitam teu
Seio profundo. Jazem em ti sepultados. 
Mundos de Platão, por Aristóteles negados.
 
A praia começa a encher-se, transformando-se numa enorme pinha de corpos besuntados, estendidos sobre toalhas coloridas na areia. Já perdeu, para mim, bastantes dos seus atrativos. Há já demasiada confusão para o meu gosto.
São onze e meia da manhã. Regresso ao hotel.

domingo, 12 de maio de 2019

QUE MAL FIZ EU À VIDA?!!!



Tinha tudo o que algum jovem de dezassete anos pode desejar.
Tinha amigos e amigas com quem me divertia, e as raparigas achavam-me simpático, atencioso, inteligente e camarada, e demonstravam bem o interesse que lhes despertava o meu corpo bem desenvolvido e robustecido pelas largas braçadas ao longo da piscina do Clube. Praticava natação desde os seis anos e tenho mesmo algumas medalhas ganhas em vários concursos em que entrei em representação do meu clube. Os olhares femininos das minhas jovens amigas e também os menos jovens perseguiam-me, fitando o meu corpo atlético e bem desenvolvido com olhares apreciativos, o que para um rapaz de dezassete anos é motivo de vaidade e dá grande impulso à sua auto-estima, convenhamos. E eu sentia-me bem com isso. Era um excelente aluno e tinha a firme convicção de poder entrar no tão desejado Curso de Medicina no próximo ano. O meu pai é médico e a crença de que também o seria um dia acompanhava-me desde a mais tenra idade. Em todas as fantasias de infância, que as crianças costumam ter sobre o que serão “quando forem grandes”, não me lembro de ter querido ser outra coisa. Sempre disse que queria ser médico como o meu pai. E tudo se encaminhava para que assim acontecesse. Iria herdar-lhe o consultório e a clientela. A vida tinha conduzido tudo no sentido que ambicionava e estava feliz e agradecido com o que me oferecia, e esforçava-me por não desperdiçar nada do que dela recebia. Recebia-o com agrado e dava-lhe seguimento. Sempre fora um vencedor e iria continuar a sê-lo.
Mas, de repente, um enorme buraco negro abriu-se em meu redor e tudo se alterou. E, da noite para o dia, senti-me a resvalar pelas paredes de um enorme poço escuro, sem fundo, sem conseguir descortinar o menor ponto de luz que me indicasse o caminho para a saída, ou encontrar uma breve raiz na parede do poço onde pudesse fincar o pé e impulsionar-me para a superfície, ou qualquer saliência a que pudesse agarrar-me com as mãos e começar a trepar. Mas vou continuar a procurar uma saliência, um ponto de apoio para sair deste poço fundo em que me encontro. Não posso deixar que vença o meu ânimo, a minha força interior. Não vou desistir.
Tudo começou por uma leve dor de cabeça, que rapidamente cresceu e me impediu de ir treinar naquele dia 23 de Março. E, quando o João, meu amigo desde o Infantário, que mora na minha rua, um pouco à frente, tocou a campainha, como sempre fazia quando íamos treinar - à passagem, dava um toque na campainha e íamos juntos para o treino -, disse-lhe que não estava muito bem-disposto e que não iria. De seguida telefonei ao meu pai a contar-lhe o que sentia. “Toma um comprimido de Dafalgam”, disse-me. Fiz imediatamente o que me aconselhou e meti-me na cama. Não estava mesmo a sentir-me nada bem. E, apesar de medicado, a dor continuou persistente e cada vez mais intensa e comecei a sentir-me nauseado e com uma enorme vontade de vomitar. Quando o meu pai chegou, sentia-me mesmo bastante mal.
Sem mais demoras, levou-me ao hospital onde fiz alguns exames. E a sentença chegou fria, cortante, devastadora: tenho um tumor na cabeça.
Seguiram-se outros exames, e outros, e outros, pedidos pelo Dr. Filipe, um neurocirurgião amigo do meu pai, e a sentença confirmou-se: tenho um tumor maligno na cabeça.
Descobriu-o por acaso, ouvindo uma conversa entre o meu pai e o Dr. Filipe que dizia: “as novidades não são boas, Henrique. Atendendo ao sítio onde está localizado o tumor, há poucas possibilidades de operar. Vamos tentar a sua sensibilidade à medicação. Talvez possamos reduzi-lo e depois se verá.”
Não quis ouvir mais. Não ouvi sequer a resposta do meu pai. Fugi dali.
“Não! Não é possível! Isto não pode estar a acontecer-me! Não, não é comigo! Tem de haver algum engano! Eu sou um rapaz forte, cheio de saúde, alegre, sempre bem-disposto. Só tenho dezassete anos. Ainda não vivi. Nunca fiz mal a ninguém. Não! A vida não pode pregar-me esta partida. Por que me castigaria assim, desta forma tão dura? Tem-me mostrado o caminho do êxito, do sonho e agora atira-me para o abismo da derrota mais fria, sem qualquer aviso prévio?”
Mas os exames são mesmo meus. Aquela massa está mesmo na minha cabeça, a pressionar o meu cérebro, num sítio inoperável, diz o neurocirurgião.
Porém o meu espírito lutador, manifestou-se logo a seguir, impondo-me o dever de não me entregar ao desespero.
Já estou a fazer medicação, e não é fácil. Mas vou lutar. Vou colocar todas as células do meu organismo a lutarem contra as malditas células cancerosas, que avançaram sorrateiramente. O meu exército defensivo vai vencer esse exército traiçoeiro que quer apoderar-se de mim. Vou usar os músculos do meu ânimo, e da minha vontade para ajudar a medicação na luta contra o invasor, destruindo-o, tal como sempre usei os músculos dos meus braços e de todo o meu corpo para cortar as águas das piscinas onde lutei por uma medalha. Tenho algumas naquele quadro pendurado do meu quarto. Elas serão o motor que me ajudará a vencer esta medalha: a mais importante de todas: a medalha da vida.
E tu, vida madrasta, que tanto me prometeste, atiras-me assim para o abismo sem qualquer esperança; mas vou demonstrar-te que me deste a força necessária para vencer esta nova prova que agora me colocas.
Vou vencer esta prova. Vou vencer a medalha da vida!
Jeracina Gonçalves

sábado, 6 de abril de 2019

O NASCER DO SOL

Estou aqui com três contos. entre os quais o  "O NASCER DO SOL",



Jorge acordou hoje bem cedo. Vai começar a semana de praia da escola e, como todos os colegas, anda ansioso com a antecipação das brincadeiras e aventuras que viverá durante esses maravilhosos dias ao ar livre, na praia, com colegas e professores. Correm, jogam a bola, apanham conchinhas e godos que depois utilizam na sala de aula em trabalhos, fazem ginástica, dão passeios pelas dunas e observam as plantinhas que por ali crescem e os caracóis pequeninos que nelas vivem agarrados, fazem grandes “locas” e castelos de areia... Enfim! São manhãs bem alegres e divertidas. E também instrutivas. Aprendem muitas coisas. Por isso a ansiedade domina-o nestes dias que precedem a semana de praia. E, logo que o dia começou a luzir, levantou-se, foi até janela e abriu-a de par em par.
O espetáculo que vislumbrou no horizonte, em frente, naquela manhã de Junho, deixou-o perfeitamente deslumbrado: uma grande bola alaranjada subia pelo espaço e tingia com tons de fogo o azul límpido e transparente do céu, a anunciar um dia cálido e luminoso, transbordante de energia, que deixava antever a fantástica semana de praia que iriam ter.
“Como é bonito!” – Exclamou.
Um colega da escola, que um dia saíra muito cedo para ir à pesca com o pai, já lhe tinha falado da beleza do nascer do Sol; mas nunca se tinha levantado suficientemente cedo para vê-lo nascer. Hoje acordou cedo e ainda bem. Pôde deliciar-se com este espetáculo e antegozar a linda semana de praia que se aproxima. Gosta muito de ir à praia com os pais e com a irmã, mas gosta muito mais de ir com a professora e com os colegas. É muito mais divertido.
No ano passado andava a brincar com os colegas e viram a ponta de uma corda a sair da areia. Puxaram... puxaram... e… nada. Não saiu. Escavaram em volta, fizeram um grande buraco e continuaram a puxar, mas a corda manteve-se presa. Foram chamar a professora: ajudou-os a puxá-la, mas continuou a não sair, e desistiram.
“Se calhar estava presa a alguma coisa muito pesada...
O que seria?” – Disse baixinho.
-Jorge, Jorge, não te arranjas? São quase horas de ires para a escola!
-Já vou, mãe. Já vou.
Absorto como estava nos seus pensamentos e nas recordações de praia do ano anterior, esquecera-se completamente que tinha de se arranjar para ir para a escola; e não gostava de chegar atrasado.
Correu para a casa de banho, tomou um chuveiro rápido, e voltou ao quarto para se vestir. Num instante estava na cozinha, preparado para tomar o pequeno-almoço. A irmã, que já acabara e estava a levantar-se da mesa, disse-lhe:
- Vê se te despachas, preguiçoso. Já é tarde. Sabes bem que a professora não gosta que cheguemos atrasados!
Apressou-se o mais que pôde: tomou rapidamente uma chávena de leite, comeu um pão com manteiga, e correu a lavar os dentes. E “num abrir e fechar de olhos” estava junto da irmã e partiram os dois a caminho da escola.
Iam felizes. Gostavam da escola. Tinham muitos amigos e aprendiam coisas bonitas.
-Bom dia! Dá licença senhora professora?
-Bom dia! Sim, entrai. Hoje o sono pesou… Estais muito atrasados.
-Senhora professora, já viu o Sol nascer?
-Já, Jorge. Já vi o Sol nascer muitas vezes e é um espetáculo da Natureza muito bonito, especialmente num dia límpido como o de hoje.
Mas a que propósito vem isso?
- Eu nunca tinha visto o sol nascer. Mas hoje acordei muito cedo e pude vê-lo nascer.
É bonito. O céu à volta do Sol fica... cor de laranja… vermelho…brilhante...
É lindo! Fiquei a olhar para o Sol e a pensar, e esqueci-me das horas.
Amanhã é que vai ser bom, senhora professora!
- Pois claro que vai ser bom. Não são bons todos os dias em que trabalhámos e aprendemos juntos? Amanhã será também um dia bom, se Deus quiser - disse a professora, que, no momento, não se lembrava da praia.
- Todos os dias são bons, senhora professora. E eu gosto muito de vir para a escola, de aprender coisas novas e de fazer os trabalhos; mas manhã começa a praia.
- Ah! Agora entendo! Tu acordaste cedo e esqueceste-te das horas porque andas a pensar na praia. Viste um Sol tão bonito e ficaste a sonhar com o dia que teremos amanhã.
- Pois foi, senhora professora.
Lembra-se daquela corda que encontrámos enterrada na areia, no ano passado?
Onde estaria presa? Se calhar estava agarrada a algum saco de droga.
- Oh!... Jorge! Que ideia! Como é que meteste isso na cabeça?
Estava muito enterrada e pronto. Não tivemos força para a desenterrar.
- Eu já ouvi dizer que, muitas vezes, descarregam os barcos nas praias, enterram a droga na areia e deixam um sinal a marcar o sítio, para mais tarde irem buscá-la. Aquela corda podia estar presa a algum saco de droga que os traficantes enterrassem ali. Pensei muito nisso, hoje, senhora Professora. E este ano vou estar bem atento a essas coisas. A droga é tão má, tão perigosa, e faz tanto mal às pessoas. O António...
O António é seu vizinho. Porta com porta. E a professora conhece-o muito bem. Andou lá na escola e era um bom rapaz, inteligente e muito bom aluno. Agora, com vinte anos, é toxicodependente e é um infeliz.
Levado por outros rapazes mais velhos, há uns anos meteu-se a experimentar coisas… coisas… Primeiro tabaco, depois outras coisas…
Até já esteve preso.
Era tão alegre, tão seu amigo: carregava-o às cavalitas, levava-o a passear de bicicleta, jogavam a bola, contava-lhe histórias...
Gostava muito dele. Agora nem chega perto. Os pais não deixam.
Tem muita pena que se tenha deixado apanhar pela droga. Detesta-a. Há-de ter bem cuidado para não se deixar apanhar por ela, quando for mais crescido. Tirou-lhe o seu grande amigo.
- Sim, o António é um infeliz que se deixou escravizar pela droga, e tenho muita pena, Jorge. Era um rapaz inteligente, que podia ser muito útil à sociedade, e anda por aí perdido.
Mas essa tua ideia...
-Não sei, senhora professora. Mas, às vezes, oiço dizer na televisão que aparece droga nas praias. E se este ano encontrarmos uma corda assim presa, que não saia, temos de contar à polícia, para que possa investigar.
-Está bem, Jorge. Se encontrarmos alguma coisa que nos pareça suspeita faremos como dizes. Tu tens razão. A droga destrói, escraviza, mata. E quando se apercebem do buraco sem fundo onde se deixaram cair, querem deixá-la, querem sair daquela escravidão e poucas vezes o conseguem. São seus escravos. A droga domina-os. Tira-lhes a vontade. Quando não a têm, não conseguem pensar em mais nada, senão na maneira de arranjarem-na. E fazem coisas que nunca fariam se fossem livres. Por isso acontecem tantos assaltos a casas, a carros, tantos roubos por esticão e outras coisas mais. A droga exige. Não lhes sai da cabeça. Precisam de muita força de vontade, de muita ajuda e de muita compreensão e firmeza da família para conseguirem libertar-se dela.
Tens razão, Jorge, todos temos de lutar contra droga. Todos.
Temos de denunciar tudo o que nos pareça suspeito.
Os traficantes usam de todos os subterfúgios, conhecem todas as manhas e agem com todas as cautelas para a introduzirem no País. E ela pode, realmente, estar enterrada na praia, sob os nossos pés.
Mas, o pior de tudo, é que a polícia investiga, procura, e só os pequenos traficantes - os desgraçados que, muitas vezes, a traficam porque também são escravos dela - são presos. Traficam-na para poderem sustentar o vício que exige ser satisfeito. E, infelizmente, só esses são apanhados e condenados.
Os grandes, os que enchem os seus cofres e engordam as suas contas bancárias no país e no estrangeiro, os que vão enriquecendo à custa da destruição de muitos dos jovens de hoje e de muitas das suas famílias, os que contribuem para que muitas crianças venham ao mundo desprotegidas - sem o amparo de um pai, ou de uma mãe, ou dos dois, nunca são apanhados. Mantêm-se na sombra. “Atiram a pedra, mas nunca mostram a mão.” Provavelmente cruzamo-nos com eles no dia-a-dia e julgamo-los pessoas muito honestas e respeitáveis. E, se calhar, quantas delas não ocuparão altos cargos na sociedade: empresários dinâmicos, pessoas “bondosas” e preocupadas com o bem-estar do seu semelhante, grandes beneméritos, capazes de contribuíram com avultadas somas param obras sociais..., e não passam de vampiros. Sugam o sangue de todos nós e vão enfraquecendo a sociedade de hoje, ao destruir-lhes as crianças e os jovens adultos que inadvertidamente se deixaram apanhar nas malhas da droga.
São eles os maiores causadores da insegurança em que vive a sociedade contemporânea. E não têm problemas de consciência. Só o dinheiro conta para eles. Dá-lhes poder. É o seu Deus e resolve-lhes todos os problemas de consciência. E, infelizmente, nesta nossa sociedade, o dinheiro compra tudo.
Tens razão, Jorge. Temos de denunciar tudo o que nos pareça suspeito. Temos de estar bem vigilantes para que todos os jovens, todos nós possamos sentir a emoção - que tu hoje sentiste - de um “Nascer do Sol” radioso, que brilhe cheio de energia e calor, em cada dia, no coração de cada um de nós.
Agora, meus meninos, cada um vai imaginar como será o dia de amanhã - o primeiro dia de praia - e construir um bonito texto.

Jeracina Gonçalves
Barcelos/Portugal