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quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

DESPEDIDA


 Caminha o velho para o fim.
Num voo de pássaro ligeiro
Voou pela minha vida
Tão ligeiro e apressado
Que quase não o percebi.
Trouxe lutas, tempestades,
Que enfrentei e venci;
Mas trouxe sobretudo a paz
Que navega o meu coração;
Ao céu elevo meu pensamento
Em homengem e gratidão.

FELIZ ANO DE 2019!
Jeracina Gonçalves
27/1272018
 

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

O OUTONO



 A chuva caída nos últimos dias amaciou o fofo tapete de folhas e ouriços que cobre o chão do souto e o ruído produzido pelos meus passos é surdo, quebrado de vez em quando pelo estalar dos pequeninos ramos caídos sob o peso dos meus pés, ou por uma ou outra castanha que cai ainda dos poucos ouriços agarrados aos frondosos e seculares castanheiros. 
Caminho devagar e deixo-me envolver pela musicalidade sussurrante das copas beijadas pela brisa, pela luminosidade velada que penetra a ramagem e por todo o mistério que este ambiente encerra, estimulando a minha imaginação em múltiplas cogitações.
- Mamã!... Mamã!...
Observo o espaço em redor e não vejo ninguém. 
Não se avista vivalma por aqui, até onde o meu olhar alcança. Mas a voz continua, e parece-me assustada.
- Mamã!... Mamã!...
Olho em todas as direções e nada avisto em meu redor. 
Muito calada e quieta, ponho-me à escuta, perscruto mais atentamente o espaço em volta, mas… nada. Não há ninguém à vista.
Contudo, por entre o leve sussurrar das folhas dos castanheiros em conversa com a brisa, chega até mim outra voz, mais abafada, mais longínqua, mas igualmente ansiosa:
- Estou aqui. Que se passa? Aconteceu alguma coisa? Estás assustado. Eu bem te disse para não saíres sozinho.
- Mãe, mãe, há um gigante na floresta!
- Um gigante?
Vem cá. Aqui estás seguro. Avisei-te! 
Disse-te para não saíres de casa, meu filho! Por que me desobedeceste? Estamos a passar por uma época muito perigosa para nós. Muito difícil! Avisei-te, repito; mas teimaste em sair sozinho e agora chegas todo assustado – falou gravemente a outra voz. 
- Mas há uma relva tão macia e tenrinha na clareira, aqui mesmo à saída de casa, mãe!... E está um dia tão lindo lá fora (e a voz é agora ainda mais abafada, como que esteja a afastar-se).
 Por este diálogo, concluo que um coelhinho, desobedecendo às ordens da mãe, saíra de casa para tosar na relva viçosa à entrada da lura e assustara-se quando me vira. A mãe acalma-o, ao mesmo tempo que recrimina o seu comportamento, chamando-lhe a atenção para a sua desobediência e para os perigos que poderiam advir daí para a sua integridade física.
O diálogo continua cada vez mais longínquo, e fico silenciosa a ouvi-lo:
- Há relva fresquinha lá fora, é verdade; mas também há muitos perigos para um coelhinho inexperiente como tu: os lobos, as raposas, os cães, os caçadores…
Todos são nossos inimigos e estão prontos a saltar-nos, se nos encontram desprevenidos. Temos de estar sempre vigilantes e de ouvido alerta.
Aqui estamos seguros. Aqui não precisas ter medo. Mas lá fora tens de ter muito cuidado. Este tempo é muito perigoso para nós. Os caçadores andam por aí com os seus cães de caça, que são nossos grandes inimigos, e quando nos encontram não nos dão tréguas. Perseguem-nos sem piedade. Fazem tudo para nos expulsarem das nossas casas. E é quando os caçadores nos alvejam e matam com o fogo que sai da boca daquelas grandes espingardas que trazem ao ombro. E se o caçador não nos atinge, o cão persegue-nos em grande velocidade, disposto a matar-nos para servirmos de troféu ao seu dono. 
Meu filho, não quero que saias sozinho. Não voltes a fazê-lo. Já te tinha falado disto, meu querido! Já te tinha avisado. Ainda és muito novo e desconheces os perigos que nos espreitam. Não deves desobedecer-me.
E, com voz mais serena e doce, continuou: 
- Anda. Já deve ter passado o perigo. Vamos espreitar. 
Se tudo estiver calmo, sairemos os dois. Mas com muito cuidado. Espera! Vem atrás de mim.
A coelha apareceu à saída da lura, junto ao tronco de um centenário castanheiro, a espreitar de orelhitas espetadas e atentas: os seus olhitos redondos moveram-se em todas as direções e recuou apressada. Vira-me. “Ainda bem que me viste e te assustei, coelhinha” – pensei, aliviada. Um pouco adiante, do lado do ribeiro, caminhando devagar e em silêncio, aproximava-se um caçador de espingarda ao ombro acompanhado pelo cão, que correndo à frente do dono, começava a mostrar grande agitação: já farejara os coelhitos, certamente. 
-Vá lá, Piloto! Sentes algum? Procura, procura, deita-o cá para fora! – Diz o caçador ao aperceber-se da agitação do cão, que fareja…, fareja…, corre para a entrada da lura e desta para o dono a ladrar, volta à entrada da lura, escava o chão com as patas dianteiras...
Os bichinhos da mata, que se aqueciam calmamente ao sol morno do outono, assustados com tanta barulheira, escapam-se por entre as folhas caídas e correm a esconder-se nos seus buraquinhos. 
Até um carreirinho de formigas, carregadas com volumes muito maiores que elas, indiferentes ao movimento da mata e preocupadas apenas em abastecerem o celeiro para o inverno a aproximar-se a passos gigantes, fogem, espavoridas, uma para cada lado, deixando a entrada do formigueiro bloqueada com os enormes volumes que carregavam.
Transidos de medo, muito encostados um ao outro no canto mais fundo da lura, em absoluto silêncio, mãe e filho esperam que o perigo passe.
Mas o cão sente-os. O seu cheiro entra-lhe nítido pelas narinas.
Ladra ferozmente e esgadanha furioso à entrada da lura para os atemorizar e obrigar a sair.  Contudo, esta é bem funda. E os coelhinhos sabem que é o local mais seguro para eles, nesta altura. 
Não sairão da sua casinha. 
Vendo que o cão não consegue tirá-los cá para fora, o caçador chama-o:
- Deixa, Piloto. Vem! Não saem. Descansa, não perderão pela demora. 
Caçador e cão seguem o seu caminho, deixando os coelhinhos em paz. E eu suspiro aliviada: o coelhinho e a mãe, por esta vez, estão a salvo. 
 Regresso a casa feliz, caminhando sobre o tapete fofo de folhas caídas, por entre os troncos dos velhos castanheiros. O vento sopra manso e faz dançar levemente os ramos sobre a minha cabeça. E, algumas folhas mais enfraquecidas, soltam-se, volteiam no ar como borboletas em volta de flores, e caem, de mansinho sobre as outras já mortas. 
Prenhe de vida, a mata prepara-se para enfrentar um período de pausa no seu ciclo.
Jeracina Gonçalves
Barcelos/Portugal

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

 
No 31º Aniversário do meu clube - o Lions Clube de Barcelos - fui brindada com um Diploma de Reconhecimento pela minha participação no patrocínio do Projeto de Bolsas de Estudo do Clube,  com o produto da venda dos meus livros, o que me faz sentir muito orgulhosa e feliz.
Jeracina Gonçalves
03/12/2018