A chuva caída nos últimos dias amaciou o fofo
tapete de folhas e ouriços que cobre o chão do souto e o ruído produzido pelos
meus passos é surdo, quebrado de vez em quando pelo estalar dos pequeninos
ramos caídos sob o peso dos meus pés, ou por uma ou outra castanha que cai
ainda dos poucos ouriços agarrados aos frondosos e seculares castanheiros.
Caminho devagar e deixo-me envolver pela musicalidade sussurrante das copas
beijadas pela brisa, pela luminosidade velada que penetra a ramagem e por todo
o mistério que este ambiente encerra, estimulando a minha imaginação em
múltiplas cogitações.
-
Mamã!... Mamã!...
Observo
o espaço em redor e não vejo ninguém.
Não se avista vivalma por aqui, até onde
o meu olhar alcança. Mas a voz continua, e parece-me assustada.
-
Mamã!... Mamã!...
Olho
em todas as direções e nada avisto em meu redor.
Muito
calada e quieta, ponho-me à escuta, perscruto mais atentamente o espaço em
volta, mas… nada. Não há ninguém à vista.
Contudo,
por entre o leve sussurrar das folhas dos castanheiros em conversa com a brisa,
chega até mim outra voz, mais abafada, mais longínqua, mas igualmente ansiosa:
-
Estou aqui. Que se passa? Aconteceu alguma coisa? Estás assustado. Eu bem te
disse para não saíres sozinho.
-
Mãe, mãe, há um gigante na floresta!
-
Um gigante?
Vem
cá. Aqui estás seguro. Avisei-te!
Disse-te para não saíres de casa, meu filho!
Por que me desobedeceste? Estamos a passar por uma época muito perigosa para
nós. Muito difícil! Avisei-te, repito; mas teimaste em sair sozinho e agora
chegas todo assustado – falou gravemente a outra voz.
-
Mas há uma relva tão macia e tenrinha na clareira, aqui mesmo à saída de casa,
mãe!... E está um dia tão lindo lá fora (e a voz é agora ainda mais abafada,
como que esteja a afastar-se).
Por este diálogo, concluo que um coelhinho,
desobedecendo às ordens da mãe, saíra de casa para tosar na relva viçosa à
entrada da lura e assustara-se quando me vira. A mãe acalma-o, ao mesmo tempo
que recrimina o seu comportamento, chamando-lhe a atenção para a sua
desobediência e para os perigos que poderiam advir daí para a sua integridade
física.
O
diálogo continua cada vez mais longínquo, e fico silenciosa a ouvi-lo:
-
Há relva fresquinha lá fora, é verdade; mas também há muitos perigos para um
coelhinho inexperiente como tu: os lobos, as raposas, os cães, os caçadores…
Todos
são nossos inimigos e estão prontos a saltar-nos, se nos encontram
desprevenidos. Temos de estar sempre vigilantes e de ouvido alerta.
Aqui
estamos seguros. Aqui não precisas ter medo. Mas lá fora tens de ter muito
cuidado. Este tempo é muito perigoso para nós. Os caçadores andam por aí com os
seus cães de caça, que são nossos grandes inimigos, e quando nos encontram não
nos dão tréguas. Perseguem-nos sem piedade. Fazem tudo para nos expulsarem das
nossas casas. E é quando os caçadores nos alvejam e matam com o fogo que sai da
boca daquelas grandes espingardas que trazem ao ombro. E se o caçador não nos
atinge, o cão persegue-nos em grande velocidade, disposto a matar-nos para
servirmos de troféu ao seu dono.
Meu
filho, não quero que saias sozinho. Não voltes a fazê-lo. Já te tinha falado
disto, meu querido! Já te tinha avisado. Ainda és muito novo e desconheces os
perigos que nos espreitam. Não deves desobedecer-me.
E,
com voz mais serena e doce, continuou:
-
Anda. Já deve ter passado o perigo. Vamos espreitar.
Se tudo estiver calmo,
sairemos os dois. Mas com muito cuidado. Espera! Vem atrás de mim.
A
coelha apareceu à saída da lura, junto ao tronco de um centenário castanheiro,
a espreitar de orelhitas espetadas e atentas: os seus olhitos redondos moveram-se
em todas as direções e recuou apressada. Vira-me. “Ainda bem que me viste e te
assustei, coelhinha” – pensei, aliviada. Um pouco adiante, do lado do ribeiro,
caminhando devagar e em silêncio, aproximava-se um caçador de espingarda ao
ombro acompanhado pelo cão, que correndo à frente do dono, começava a mostrar
grande agitação: já farejara os coelhitos, certamente.
-Vá lá, Piloto! Sentes
algum? Procura, procura, deita-o cá para fora! – Diz o caçador ao aperceber-se
da agitação do cão, que fareja…, fareja…, corre para a entrada da lura e desta
para o dono a ladrar, volta à entrada da lura, escava o chão com as patas dianteiras...
Os
bichinhos da mata, que se aqueciam calmamente ao sol morno do outono,
assustados com tanta barulheira, escapam-se por entre as folhas caídas e correm
a esconder-se nos seus buraquinhos.
Até um carreirinho de formigas, carregadas
com volumes muito maiores que elas, indiferentes ao movimento da mata e
preocupadas apenas em abastecerem o celeiro para o inverno a aproximar-se a
passos gigantes, fogem, espavoridas, uma para cada lado, deixando a entrada do
formigueiro bloqueada com os enormes volumes que carregavam.
Transidos
de medo, muito encostados um ao outro no canto mais fundo da lura, em absoluto
silêncio, mãe e filho esperam que o perigo passe.
Mas
o cão sente-os. O seu cheiro entra-lhe nítido pelas narinas.
Ladra
ferozmente e esgadanha furioso à entrada da lura para os atemorizar e obrigar a
sair. Contudo, esta é bem funda. E os
coelhinhos sabem que é o local mais seguro para eles, nesta altura.
Não sairão
da sua casinha.
Vendo
que o cão não consegue tirá-los cá para fora, o caçador chama-o:
-
Deixa, Piloto. Vem! Não saem. Descansa, não perderão pela demora.
Caçador
e cão seguem o seu caminho, deixando os coelhinhos em paz. E eu suspiro
aliviada: o coelhinho e a mãe, por esta vez, estão a salvo.
Regresso a casa feliz, caminhando sobre o
tapete fofo de folhas caídas, por entre os troncos dos velhos
castanheiros. O
vento sopra manso e faz dançar levemente os ramos sobre a minha cabeça. E, algumas folhas mais enfraquecidas, soltam-se, volteiam no ar como borboletas em
volta de flores, e caem, de mansinho sobre as outras já mortas.
Prenhe
de vida, a mata prepara-se para enfrentar um período de pausa no seu ciclo.
Jeracina Gonçalves
Barcelos/Portugal