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quarta-feira, 25 de janeiro de 2023

 O NATAL ACONTECEU

Já fora jovem, bela e feliz. Fora neta, filha, mãe, amara perdidamente e fora amada. Tivera casa, marido e dois filhos que eram a luz dos seus olhos, amigos, um emprego de que gostava e onde era reconhecido o seu trabalho.
Fora feliz, muito feliz. Teve tudo que uma mulher tem direito. Mas há horas que surgem na vida da gente e, como que por artes sobrenaturais, tudo transformam de um dia para o outro: horas tecidas pelo diabo. E aconteceram na sua vida.
Deixou-se levar pelo seu coração aventureiro, na figura de um jovem garboso, atlético, de boas falas, que entrou na sua vida de forma inesperada. Queimou-lhe o coração no primeiro momento em que os seus olhares, fugaz e inadvertidamente se encontraram, ao se cruzarem na rua. Dias mais tarde, para grande espanto seu, encontrou-o no escritório onde trabalhava como Secretária: um engenheiro acabado de contratar pela empresa. 
Tentou resistir ferozmente à chama que a inflamava por dentro, como labareda acesa em inflamada combustão, cada vez que os seus olhares se cruzavam ou ouvia o timbre da sua voz. Começou a fazer parte da sua vida. Em qualquer momento do dia-a-dia, longe ou perto dele, tinha-o presente em si. E, um dia, caíram nos braços um do outro, plenos de arrebatamento e paixão.
Que fazer se os dois eram consumidos pelo mesmo fogo? Não resistiram. Ele, um jovem de 35 anos, divorciado, sem compromissos sentimentais. 
Ela, uma mulher de quase 50, mãe de um jovem de 19 anos e outro de 22, com um marido bondoso, amigo e presente. Porém a força que a arrebatava para aquele amor louco era mais poderosa que tudo o resto. 
Largou tudo. 
Largaram tudo e partiram nos braços um do outro de mochila às costas, como dois jovens adolescentes vivendo o seu primeiro grande amor. 
Viajaram pelo mundo fazendo um biscate aqui, outro ali (o que aparecia) para sobreviverem, e foram, assim, correndo mundo, num arrebatamento apaixonado e embriagador.
Assim se passaram três anos nesse idílio apaixonado e sem compromissos. 
Até que, em Luanda, decidiram procurar um emprego condicente com as formações académicas de cada um para, enfim, aquietarem um pouco essa fúria de viver, essa adrenalina viciante que os levava a correr mundo, e arranjarem um canto a que pudessem chamar seu e viver o seu amor de forma mais tradicional.
Luanda estava num momento de grande expansão e não lhes foi difícil arranjar emprego numa empresa de construção civil, portuguesa, que, na época, operava em Angola, que lhes deu também direito a casa. Luís como engenheiro e ela como secretária. 
Porém a vivência do amor arrebatado que os ligava não se coadunava com a monotonia do dia-a-dia de uma vida a dois, com horários de trabalho estabelecidos, colegas, viagens, reuniões após o horário de trabalho, e todo o ramerrame que todo o dia-a-dia acarreta. E em breve começaram as discussões, os choques de personalidade, as dúvidas, os ciúmes e todos os males que daí advêm.
A grande paixão que os ligava não se tinha estruturado o suficiente e transmutado no tal sentimento que une e perdura para além de todas as catástrofes. E tudo ruiu poucos anos depois como um baralho de cartas. 
Separaram-se. 
Ficou emocionalmente desfeita e entrou, então, num tipo de vida que não conhecia e de cujos perigos não soube defender-se. Perdeu o emprego e acabou no trapo humano que agora é: uma velha com quase setenta anos, a vadiar pelas ruas, sem eira nem beira, há mais de cinco anos. A comer e a vestir o que lhe dão e a dormir nos vãos das escadas ou nos bancos dos jardins.
Ana é açoitada por estes pensamentos enquanto deambula pela ruas de Lisboa cheias de música, de luzes e de ornamentações de Natal, e pejadas de gentes a cruzarem-se, apressadas, de sacolas na mão carregadas de embrulhos, entrando e saindo das lojas vistosas inundadas de luz.
Também ela já viveu esta azáfama. Também ela já entrou apressada nas lojas para comprar os presentes de Natal para os seus entes queridos. 
O Natal era a quadra do ano de que mais gostava. Era uma época de muita alegria, tanto em solteira como depois de casada. E a Noite de Consoada tinha, para si, uma magia especial, especialmente depois de nascerem os filhos.
Nos primeiros anos de casada era passada ora em casa dos pais ora na dos sogros; mas, após o nascimento das crianças, quando estas passaram a ter algum entendimento, ela e o João conversaram com os pais e ficou decidido que o Dia de Consoada e o Dia de Natal seriam passados lá em casa. Os pais e os sogros vinham a sua casa, e eram dias mágicos para as crianças que tinham os avós naqueles dias inteiramente por sua conta, com as suas histórias, o seu afecto e os seus presentes! Eram dias iluminados pelo seu riso e pelos seus gritos de alegria, e perfumados pelo cheiro das filhoses, da aletria, das rabanadas, dos mexidos, que as mães confeccionavam na cozinha durante a tarde do dia 24, enquanto ela se ocupava do arranjo cuidado da sala, onde já piscavam as luzes do Presépio e da Árvore de Natal, junto à lareira crepitante. E, no Dia de Natal, mal o dia raiava no horizonte, as crianças corriam para junto do Presépio em busca dos presentes deixados pelo Menino Jesus. 
O dia começava animado pela alegria das crianças a abrirem os presentes entre os papéis metalizados espalhados pelo chão. 
Era tão feliz nesse tempo!
Agora… Agora nada tem. Não vive, arrasta-se pela vida. 
Nunca se atreveu a procurar o marido e os filhos depois de regressar de Luanda. Não teve coragem. Que lhes diria? Deixou-se ficar por Lisboa e por aí se tem arrastado.
Hoje, Dia de Consoada, seguiu na turba de outros que vivem como ela, e dirigiu-se ao Centro Porta Amiga onde é servido um jantar de natal para os que, como ela, se arrastam pelas ruas. 
Seguiu na fila e arranjou lugar em uma das grandes mesas que enchem o salão. Espera a sua vez de ser servida. 
Aproxima-se um homem com uma terrina fumegante e uma concha na mão:
- Mãe?!
Seus olhos, espantados, fitam um homem de uns quarenta e tal anos, que a olha incrédulo, tendo nas mãos uma grande terrina de sopa e uma concha. 
Olha-o e os seus olhos enchem-se de lágrimas:
- Meu filho! És tu, Jorge, meu filho!
As lágrimas correm-lhe em fila pelas faces enrugadas e macilentas.
O Natal acontecera.
Jeracina Gonçalves
Barcelos/Portugal/Dezembro 2022

In: Inovador

sábado, 16 de abril de 2022


 

 A CADEIRA MÁGICA


A pequena Margarida viu-se de repente sentada numa cadeira de penas a sobrevoar um lugar onde tudo é verde, florido, nas margens de um pequeno riacho de águas frescas e cristalinas a cantar por entre as lajes e pedregulhos do seu leito fragoso.
Flores de todas as cores crescem e florescem por todos os lados nos pequenos socalcos viçosos das margens.
Há flores amarelas, brancas, roxas, azuis, vermelhas e outras. Parece o lugar do arco-íris.
E também há passarinhos a chilrear e a esvoaçarem de arbusto em arbusto, de ramo em ramo…
Margarida olha em volta atónita e assustada. Não sabe como foi até ali. Lembra-se de estar no seu quarto a ler um livro de histórias com gravuras. Uma das ilustrações era uma águia-real, magnífica, a voar projetada num céu muito azul e transparente. Nem o menor retalho de nuvem maculava a limpidez do azul cristalino daquele céu de primavera. Era uma gravura lindíssima!
Parara de ler e ficara a olhá-la e a pensar que devia ser bom poder voar assim, livre, pelo espaço azul, sem barreiras nem muros que lhe travassem o avanço: voar… voar… Apenas voar.
Poder voar seria esplêndido! Poder ver o mundo todo de cima: as pessoas, as plantas, os rios, os montes, as estradas, as casas…
“Devem ver-se muito melhor. Mas, se calhar, ficam muito pequeninas. Se voar tão alto como esta águia, as coisas devem parecer muito pequeninas” – pensara.
E, de repente, vê-se ali, sentada naquela cadeira de penas, a navegar pelo ar como se alguma fada tivesse ouvido o anseio do seu coração e lhe tivesse concretizado o desejo.
Assustada, gritou:
-Ajudem-me! Tirem-me daqui! Quero sair daqui! Tenho medo!
Então, para tornar ainda maior o seu espanto e a sua ansiedade, a cadeira de penas falou e disse:
-Não te assustes, Margarida. Estás segura. Eu sou a Cadeira Mágica da Águia-real. Ela ouviu o teu pensamento e mandou-me para satisfazer o teu desejo.
Estou à tua disposição. É só dizeres onde queres ir e eu cumprirei as tuas ordens. Levar-te-ei onde quiseres.
Inquieta e espantada, Margarida retorquiu-lhe:
- Muito obrigada. Mas… Tu falas!? Sabes o meu nome!? – Perguntou.
- Como já te disse, sou a Cadeira Mágica da Águia-real e sei tudo sobre ti.
Antes de enviar-me para servir-te, a Águia-real informou-me sobre ti.
Sei como te chamas, do que gostas, onde vives, o que fazes… Sei tudo. Levar-te-ei aonde quiseres e responderei a todas as perguntas que queiras fazer-me.
- Como é que a Águia-real me conhece? Como é que adivinhou o meu desejo? Como soube que gostaria de voar e ver os rios, os lagos, as plantas, as montanhas, os animais… tudo, daqui de cima, do ar?
- A Águia-real é uma fada. Adivinha os pensamentos dos meninos e das meninas e gosta de ajudá-los a concretizar os seus sonhos. Tu manifestaste o desejo de voar e ela quis ajudar-te a realizar a tua aspiração.
-Então a Águia-real é boa. É amiga dos meninos e das meninas.
-A Águia-Real é, como já disse, uma Fada: uma Fada bondosa. É uma Fada-madrinha e gosta muito de ver os meninos e as meninas felizes. Ajuda-os a concretizar todos os seus desejos. Quando são desejos que não ferem nem fazem mal a ninguém.
-E não me deixas cair? Tenho medo! – Disse Margarida, ainda com algum receio, mas desejosa de poder viver aquela aventura maravilhosa.
-Não! Não te deixo cair. Não tenhas medo. Comigo estás segura. Diz-me onde queres ir e eu levar-te-ei.
Margarida animou-se; e, entusiasmada, disse:
- Quero seguir este riacho. Quero ver até onde leva a vida que carrega nas suas águas límpidas e frescas.
Desce um pouco mais. Aproxima-te mais dele para poder ver bem as flores, os passarinhos, as borboletas, as joaninhas e todos os animaizinhos que vivem e se sustentam no seu leito e nas suas margens.
E quero ver se tem peixinhos.
A Cadeira Mágica obedeceu imediatamente à vontade de Margarida. Iniciou lentamente a descida até quase poisar no chão, e ficou a planar sobre o leito e as margens do ribeiro, enquanto Margarida, feliz, batia palmas e, ia dizendo, entusiasmada:
- Olha… Olha… Que bonito! Tantas flores amarelas, brancas, cor-de-rosa, azuis…
E borboletas. Que bonitas borboletas!
Olha aquela, ali, de asas amarelas e pretas. É bem bonita!
- Não batas palmas, Margarida! Assustas as borboletas e os passarinhos. Faze-los fugir e já não poderás vê-los – proferiu a Cadeira Mágica.
Estamos na primavera – continuou - e na primavera há borboletas, flores, passarinhos a cantar…
- Eu sei. Ontem, na escola, falámos da primavera. A professora até disse que é a estação do ano em que tudo se renova e cresce. A natureza regenera-se. Enche-se de vida nova. Por isso há tantas flores, tantas borboletas, e os passarinhos andam tão contentes e atarefados a preparar os “bercinhos” para os seus filhinhos.
Primeiro põem lá os ovinhos. Dos ovinhos nascerão os seus filhinhos – disse Margarida.
- Muito bem. É isso mesmo. Na primavera toda a natureza renasce cheia de alegria, de vida e de cor – retorquiu a Cadeira Mágica.
- Gosto de ver os campos, assim bonitos e vistosos, com estes tapetes coloridos a cobrirem a terra; e gosto de ouvir os passarinhos. Cantam tão bem! Estás a ouvi-los? – Falou Margarida.
Mas a Cadeira Mágica, que estava a dar atenção ao voo e à rota a seguir, não respondeu.
Margarida insistiu:
- Estás a ouvir os passarinhos? Cantam tão bem!
-Sim. Estou a ouvi-los.
Sabes os nomes dos passarinhos que estão a cantar? – Perguntou.
-Não. Só conheço os canários e os periquitos.
O pai da minha amiga Joana tem canários e periquitos numa gaiola na marquise da cozinha – retorquiu Margarida.
-Estes nem são canários, nem periquitos.
Vês aquele ali, negro, de bico amarelo? É um melro macho. Canta muito bem. É um prazer ouvi-lo cantar logo ao amanhecer.
Ouve: este assobio repenicado é dele.
- E aqueles além com asas pretas e amarelas e cabeça vermelha, branca e preta, como se chamam? – Perguntou Margarida.
- Esses são os pintassilgos.
Os seus trinados, logo pela manhã, nos jardins do Palácio da Águia-real, encantam os meus ouvidos.
Mas há ali pardais, tentilhões, rouxinóis, …
Os rouxinóis também cantam muito bem.
Há por ali muitos passarinhos diferentes, com vozes muito diferentes que, juntas, compõem uma melodia harmoniosa e bonita. Escuta-os. É delicioso ouvi-los, não te parece? – Perguntou a Cadeira Mágica.
-Sim. Até parece que estamos numa sala de espetáculos a ouvir uma grande Orquestra – retorquiu Margarida, que costumava frequentar os concertos Promenade do Coliseu do Porto. Ao mesmo tempo mantinha o olhar perdido no riacho a descer por entre os pedregulhos do leito. Escutava atentamente a canção da água, que chegava também aos seus ouvidos, harmoniosa, pura.
E, voltando-se para a Cadeira Mágica, exclamou:
- A água do rio também canta.
-Pois canta. Entendes o que ela diz? – Retorquiu a Cadeira Mágica.
Margarida fechou os olhos por alguns momentos e pôs-se a escutar atentamente o som da água a fluir pelo leito pedregoso do rio. Depois exclamou:
-Sim. Eu sei o que a água diz. Diz assim:

Venho de cima, da serra,
Onde calmamente dormia
No seio da rocha-mãe.
Minha mãe abriu a janela
Por onde espreitei e saí.
Vi que o céu era azul
A terra cheia de luz
Quis conhecer mundo e parti.

Encontrei outras irmãs
Desejosas de aventura:
Umas, tímidas e frágeis;
Outras, afoitas e belas,
A todas fui abraçando.
Em força e em graça cresci.

Sou agora já riacho
Um lindo riacho da serra.
Outros irei encontrar
Outros irei abraçar
E outros me abraçarão.
Juntos, seremos rio
Abraçaremos outros rios
Até aos braços do mar.

-Muito bem! Entendeste bem a canção da água!
A água dos rios, depois de muito caminhar e de muitas aventuras viver, acaba a descansar no mar, que é o grande reservatório. É o grande “tanque” que recebe todas as águas que correm à superfície da Terra. – Disse a Cadeira Mágica.
Mas Margarida estava tão embebida a observar a beleza à sua volta, que nem ouviu a Cadeira Mágica. E, verbalizando o seu pensamento, disse:
- Isto aqui é muito bonito. Obrigada, por me teres trazido até aqui.
Quero conhecer este rio. Quero conhecer as suas aventuras. Quero conhecê-lo e saber como vive até se atirar nos braços do mar.
- Levar-te-ei até onde quiseres, Margarida.
- Muito Obrigada! Quero pedir-te mais uma coisa.
- Pede o que quiseres; estou aqui para te servir – retorquiu-lhe a Cadeira Mágica.
- Pois bem: Cadeira Mágica não é nome de amiga. E tu és minha amiga, não és? – Perguntou.
- Claro! Eu sou tua amiga. – Respondeu a Cadeira Mágica.
- Então vou dar-te um nome: um nome de amiga de que gosto muito. Vou chamar-te Magui. Serás a minha amiga Magui.
- Fico muito feliz por me dares um nome de amiga. Um nome especial de que gostas muito. É um privilégio para mim. Para ti serei Magui, com muito prazer – disse a Cadeira Mágica.
- Pois bem, Magui, ontem, na escola, a Professora falou-nos da poluição dos rios e do mal que a poluição faz a toda a vida na natureza. Tanto à vida das pessoas, como à vida dos animais e das plantas. Aqui a água é bem limpa e transparente e vêem-se as ervinhas do fundo do leito a dançar com os peixinhos prateados. Não há poluição. Há alegria e vida saudável. Por isso há tantas flores e tão bonitas, e tantos passarinhos e borboletas e muitos outros bichinhos. Mas ao longo de todo o seu percurso, este rio será sempre tão bonito e saudável como aqui?
A professora disse que há muitos rios poluídos, que transportam a morte aos lugares por onde passam, em vez de transportarem a vida. – Disse Margarida.
- E é verdade. Há muitos rios sujos, conspurcados com detritos de todo o género, que matam os peixinhos e agridem toda a vida em redor, incluindo a das pessoas, que, muitas vezes, adoecem por causa das águas sujas dos rios.
Vamos lá conhecer este, então. Iremos as duas conhecê-lo – respondeu Magui, a Cadeira Mágica, começando a elevar-se para tomar altitude e sobrevoar o leito do riacho em direção a jusante.
Margarida, muito atenta, vai observando o trajeto do rio por um leito fragoso, entre socalcos floridos e margens bordejadas de árvores viçosas. Muitas delas carregadas de flores. Um pouco mais abaixo salta uma enorme ravina e cai sobre um pequeno lago de fundo rochoso, muito límpido e transparente, a refletir o rendilhado das árvores das margens e o azul do céu. Logo depois abraça algumas pequenas nascentes, que escorrem de uma e da outra margem do leito a fluir por um estreito vale entre montanhas corpulentas. Segue por aí mais calmo e tranquilo entre várzeas planas e verdejantes, pintalgadas de flores brancas e amarelas; depois atravessa campos lavrados; logo a seguir, de novo irrequieto e rebelde, salta um desfiladeiro apertado e pedregoso e galga de rocha em rocha. Vindo do seu lado esquerdo, outro pequeno riacho se lhe junta, lhe engrossa a voz, e torna-o mais forte e rebelde a descer por entre margens de árvores frondosas. Até que…
- Magui! Magui! há ali uma casinha na margem. Outra mais a baixo. E outra…E outra...
Vamos vê-las, Magui? – Diz Margarida, apontando uns casinhotos em pedra rústica, a pouca distância uns dos outros, nas margens do rio.
- Aquelas casinhas foram, em tempos, moinhos de água. Agora já não funcionam. Foram substituídos por moinhos elétricos. Mas antigamente eram muito importantes na vida das populações: transformavam o milho, o centeio, o trigo, a cevada e outros grãos, e até as castanhas, em farinha para fazer pão, biscoitos, bolos... – Ia informando Magui, enquanto perdia altitude e se aproximava do primeiro moinho.
Margarida espreitou pela porta, já sem porta e disse:
- Está tudo tão velho e sujo! Olha, tem ali uma pedra redonda, grande e grossa…
- Aquela pedra circular é a mó do moinho. A mó rodava e, como era muito pesada, ia esmagando os grãos que caíam da tremonha.
- Mas aquela pedra é muito pesada, como é que rodava? – Inquiriu Margarida, espantada.
- Pela força da água. Fazia-se uma barreira no leito do rio para encaminhar a água para uma levada e fazia-se cair de alto sobre um mecanismo no poço do moinho. A força da água a cair sobre esse mecanismo fazia rodar o rodízio, que, por sua vez, fazia rodar a mó. – Informou Magui.
-Sabes tantas coisas, Magui!
Eu gostava de ver o moinho a trabalhar – proferiu a Margarida, que não estava a entender muito bem o que era o rodízio, nem com fazia rodar a mó.
- Eu sei que é difícil perceberes como funcionava, sem o veres a trabalhar; mas não é fácil encontrar um moinho que ainda funcione a água. Agora são todos elétricos – falou Magui, a Cadeira Mágica.
- Que pena… – Disse Margarida.
E logo depois:
-Vamos continuar, Magui?
A Cadeira Mágica recomeçou a elevar-se para continuar a descida do rio, que ora de uma margem, ora da outra, ia recebendo a força de pequenos ribeiros, que lhe iam engrossando a voz e a força.
Sempre muito atenta ao trajeto, Margarida viu um grande barracão muito perto da margem, numa das encostas da serra. E, como voavam bastante baixo, um cheiro desagradável entrou-lhe pelas narinas.
- Que fedor! Cheira aqui tão mal!...
Vamos ver de onde vem este cheiro desagradável, Magui?
A Cadeira Mágica diminuiu a velocidade e baixou de altitude; quanto mais se aproximavam do barracão mais desagradável era o cheiro.
- Que porcaria! – Verbalizou Margarida, ao dar-se conta de um regueiro que saia do barracão e levava dejetos diretamente para o rio. À volta um enxame de moscas e mosquitos fervilhava. O cheiro era nauseabundo.
A Cadeira Mágica levou Margarida até junto de um “janelo” aberto na parede do barracão. Ela espreitou e disse:
- Porcos! Isto é uma pocilga, Magui. Por isso este cheiro horrível e esta porcaria toda a escorrer para o rio. Esta porcaria mata o rio. Aqui não há peixes. Só há moscas e mosquitos.
Tira-me daqui. Este cheiro mata-nos. Vamos embora – Disse Margarida enojada e revoltada com o que vira.
Retomaram a viagem. Margarida observava escrupulosamente cada pedaço do trajeto. Para trás ficara a imundice e o cheiro desagradável. Pouco a pouco o rio recompunha-se e retomava o aspeto límpido e sadio: as plantas medravam, os passarinhos e as borboletas voejavam e pousavam de ramo em ramo, saudáveis e felizes, até que…
- Magui olha. Vê ali, na margem direita: pneus, fogões velhos, frigoríficos…
Isto é uma lixeira! As pessoas fazem do rio uma lixeira. Depositam nele todas as porcarias.
-Tens razão, Margarida. Não cuidam da preservação e limpeza dos cursos de água e é preciso que mudem. Precisam de aprender e terem o cuidado de não poluírem os rios. Deles se adquire água que todos os dias consumimos em nossas casas – informou a Cadeira Mágica.
- Pois é. A professora na escola já falou disso. E disse que a água que temos em casa é captada nos rios e depois de tratada é distribuída pelas casas. Se não for de boa qualidade pode provocar doenças muito graves. – Completou Margarida
-E é verdade! – Proferiu Magui.
-Margarida… Margarida… Acorda! Está na hora de te levantares para ires para a escola.
Vamos lá…, Amor!
-Oh! … mãe! Acordaste-me…
-Está na hora, filha!
-Oh! … Estava a ter um sonho tão bonito e acordaste-me, Mãe!
Andava a voar…
-Vamos, meu amor! Agora não. Agora tens de te arranjar.
Depressa. Contas-mo o teu sonho no carro.
Vai, vai arranjar-te depressa, para não chegarmos atrasadas.
Margarida saltou da cama e foi para a casa de banho arranjar-se. Não gosta de chegar tarde à escola.
In: “A CADEIRA MÁGICA E OUTRAS HISTÓRIAS”
Jeracina Gonçalves – Barcelos/Portugal/2018



quarta-feira, 3 de julho de 2019

UMA MANHÃ NA PRAIA

... emana uma toada ronronante e embaladora que me apetece e me relaxa - a toada terna de um mar amigo, bonacheirão: aproxima-se, afasta-se, aproxima-se, afasta-se, ritmada, contínua, muito calma, muito mansa…
Ao longe, pequenos barcos de pesca fazem a faina na grande planície líquida que se alarga para lá da linha do horizonte até à costa africana. Mais próximo, navegam dois barquinhos à vela.
Aconchegada sob a sombra protetora do guarda-sol de colmo, vou observando o vai e vem lento das águas mansas e a enorme praia de areia macia, a esta hora quase deserta. Contam-se pelos dedos das mãos as pessoas presentes: um casal joga badmington; duas crianças brincam na areia com os seus baldinhos coloridos: um verde e outro amarelo, e junto à linha de água, onde a areia é mais rija e torna o caminhar mais agradável, caminham mais ou menos apressadas algumas pessoas.
.....
Fecho os olhos.
Deitada na espreguiçadeira, deixo-me levar ao sabor do canto doce deste mar tranquilo, arrastada pela sua voz mansa, melodiosa para os meus ouvidos, que me transporta pelos caminhos da fantasia. Mergulho no interior do seu mundo silencioso, cheio de vida e de mistério, em busca de mitos perdidos no emaranhado dos tempos; vagueio por mundos de sonho. Mundos de fausto e de esplendor descritos por Platão nos seus diálogos Timeus e Crítias, dormindo o sono profundo nas entranhas do mar (pelo que deixou descrito o grande filósofo, não dormirão muito longe daqui); percorro salões magnificentes, por entre as suas colunas de jaspe e âmbar, de palácios habitados por seres semidivinos, aparentados com os deuses, cheios de sabedoria e de bondade. Seres que se deixaram enredar pelos “vícios” do poder e perdendo a virtude e as características divinas, atraíram a fúria dos deuses. No espaço de um dia e de uma noite de terramotos e inundações, pereceram para sempre sepultados nas profundezas deste mar que me enfeitiça.
Mitos perdidos no enredo dos tempos,
Engolidos por deuses em fúria, habitam teu
Seio profundo. Jazem em ti sepultados. 
Mundos de Platão, por Aristóteles negados.
 
A praia começa a encher-se, transformando-se numa enorme pinha de corpos besuntados, estendidos sobre toalhas coloridas na areia. Já perdeu, para mim, bastantes dos seus atrativos. Há já demasiada confusão para o meu gosto.
São onze e meia da manhã. Regresso ao hotel.

domingo, 12 de maio de 2019

QUE MAL FIZ EU À VIDA?!!!



Tinha tudo o que algum jovem de dezassete anos pode desejar.
Tinha amigos e amigas com quem me divertia, e as raparigas achavam-me simpático, atencioso, inteligente e camarada, e demonstravam bem o interesse que lhes despertava o meu corpo bem desenvolvido e robustecido pelas largas braçadas ao longo da piscina do Clube. Praticava natação desde os seis anos e tenho mesmo algumas medalhas ganhas em vários concursos em que entrei em representação do meu clube. Os olhares femininos das minhas jovens amigas e também os menos jovens perseguiam-me, fitando o meu corpo atlético e bem desenvolvido com olhares apreciativos, o que para um rapaz de dezassete anos é motivo de vaidade e dá grande impulso à sua auto-estima, convenhamos. E eu sentia-me bem com isso. Era um excelente aluno e tinha a firme convicção de poder entrar no tão desejado Curso de Medicina no próximo ano. O meu pai é médico e a crença de que também o seria um dia acompanhava-me desde a mais tenra idade. Em todas as fantasias de infância, que as crianças costumam ter sobre o que serão “quando forem grandes”, não me lembro de ter querido ser outra coisa. Sempre disse que queria ser médico como o meu pai. E tudo se encaminhava para que assim acontecesse. Iria herdar-lhe o consultório e a clientela. A vida tinha conduzido tudo no sentido que ambicionava e estava feliz e agradecido com o que me oferecia, e esforçava-me por não desperdiçar nada do que dela recebia. Recebia-o com agrado e dava-lhe seguimento. Sempre fora um vencedor e iria continuar a sê-lo.
Mas, de repente, um enorme buraco negro abriu-se em meu redor e tudo se alterou. E, da noite para o dia, senti-me a resvalar pelas paredes de um enorme poço escuro, sem fundo, sem conseguir descortinar o menor ponto de luz que me indicasse o caminho para a saída, ou encontrar uma breve raiz na parede do poço onde pudesse fincar o pé e impulsionar-me para a superfície, ou qualquer saliência a que pudesse agarrar-me com as mãos e começar a trepar. Mas vou continuar a procurar uma saliência, um ponto de apoio para sair deste poço fundo em que me encontro. Não posso deixar que vença o meu ânimo, a minha força interior. Não vou desistir.
Tudo começou por uma leve dor de cabeça, que rapidamente cresceu e me impediu de ir treinar naquele dia 23 de Março. E, quando o João, meu amigo desde o Infantário, que mora na minha rua, um pouco à frente, tocou a campainha, como sempre fazia quando íamos treinar - à passagem, dava um toque na campainha e íamos juntos para o treino -, disse-lhe que não estava muito bem-disposto e que não iria. De seguida telefonei ao meu pai a contar-lhe o que sentia. “Toma um comprimido de Dafalgam”, disse-me. Fiz imediatamente o que me aconselhou e meti-me na cama. Não estava mesmo a sentir-me nada bem. E, apesar de medicado, a dor continuou persistente e cada vez mais intensa e comecei a sentir-me nauseado e com uma enorme vontade de vomitar. Quando o meu pai chegou, sentia-me mesmo bastante mal.
Sem mais demoras, levou-me ao hospital onde fiz alguns exames. E a sentença chegou fria, cortante, devastadora: tenho um tumor na cabeça.
Seguiram-se outros exames, e outros, e outros, pedidos pelo Dr. Filipe, um neurocirurgião amigo do meu pai, e a sentença confirmou-se: tenho um tumor maligno na cabeça.
Descobriu-o por acaso, ouvindo uma conversa entre o meu pai e o Dr. Filipe que dizia: “as novidades não são boas, Henrique. Atendendo ao sítio onde está localizado o tumor, há poucas possibilidades de operar. Vamos tentar a sua sensibilidade à medicação. Talvez possamos reduzi-lo e depois se verá.”
Não quis ouvir mais. Não ouvi sequer a resposta do meu pai. Fugi dali.
“Não! Não é possível! Isto não pode estar a acontecer-me! Não, não é comigo! Tem de haver algum engano! Eu sou um rapaz forte, cheio de saúde, alegre, sempre bem-disposto. Só tenho dezassete anos. Ainda não vivi. Nunca fiz mal a ninguém. Não! A vida não pode pregar-me esta partida. Por que me castigaria assim, desta forma tão dura? Tem-me mostrado o caminho do êxito, do sonho e agora atira-me para o abismo da derrota mais fria, sem qualquer aviso prévio?”
Mas os exames são mesmo meus. Aquela massa está mesmo na minha cabeça, a pressionar o meu cérebro, num sítio inoperável, diz o neurocirurgião.
Porém o meu espírito lutador, manifestou-se logo a seguir, impondo-me o dever de não me entregar ao desespero.
Já estou a fazer medicação, e não é fácil. Mas vou lutar. Vou colocar todas as células do meu organismo a lutarem contra as malditas células cancerosas, que avançaram sorrateiramente. O meu exército defensivo vai vencer esse exército traiçoeiro que quer apoderar-se de mim. Vou usar os músculos do meu ânimo, e da minha vontade para ajudar a medicação na luta contra o invasor, destruindo-o, tal como sempre usei os músculos dos meus braços e de todo o meu corpo para cortar as águas das piscinas onde lutei por uma medalha. Tenho algumas naquele quadro pendurado do meu quarto. Elas serão o motor que me ajudará a vencer esta medalha: a mais importante de todas: a medalha da vida.
E tu, vida madrasta, que tanto me prometeste, atiras-me assim para o abismo sem qualquer esperança; mas vou demonstrar-te que me deste a força necessária para vencer esta nova prova que agora me colocas.
Vou vencer esta prova. Vou vencer a medalha da vida!
Jeracina Gonçalves

sábado, 6 de abril de 2019

O NASCER DO SOL

Estou aqui com três contos. entre os quais o  "O NASCER DO SOL",



Jorge acordou hoje bem cedo. Vai começar a semana de praia da escola e, como todos os colegas, anda ansioso com a antecipação das brincadeiras e aventuras que viverá durante esses maravilhosos dias ao ar livre, na praia, com colegas e professores. Correm, jogam a bola, apanham conchinhas e godos que depois utilizam na sala de aula em trabalhos, fazem ginástica, dão passeios pelas dunas e observam as plantinhas que por ali crescem e os caracóis pequeninos que nelas vivem agarrados, fazem grandes “locas” e castelos de areia... Enfim! São manhãs bem alegres e divertidas. E também instrutivas. Aprendem muitas coisas. Por isso a ansiedade domina-o nestes dias que precedem a semana de praia. E, logo que o dia começou a luzir, levantou-se, foi até janela e abriu-a de par em par.
O espetáculo que vislumbrou no horizonte, em frente, naquela manhã de Junho, deixou-o perfeitamente deslumbrado: uma grande bola alaranjada subia pelo espaço e tingia com tons de fogo o azul límpido e transparente do céu, a anunciar um dia cálido e luminoso, transbordante de energia, que deixava antever a fantástica semana de praia que iriam ter.
“Como é bonito!” – Exclamou.
Um colega da escola, que um dia saíra muito cedo para ir à pesca com o pai, já lhe tinha falado da beleza do nascer do Sol; mas nunca se tinha levantado suficientemente cedo para vê-lo nascer. Hoje acordou cedo e ainda bem. Pôde deliciar-se com este espetáculo e antegozar a linda semana de praia que se aproxima. Gosta muito de ir à praia com os pais e com a irmã, mas gosta muito mais de ir com a professora e com os colegas. É muito mais divertido.
No ano passado andava a brincar com os colegas e viram a ponta de uma corda a sair da areia. Puxaram... puxaram... e… nada. Não saiu. Escavaram em volta, fizeram um grande buraco e continuaram a puxar, mas a corda manteve-se presa. Foram chamar a professora: ajudou-os a puxá-la, mas continuou a não sair, e desistiram.
“Se calhar estava presa a alguma coisa muito pesada...
O que seria?” – Disse baixinho.
-Jorge, Jorge, não te arranjas? São quase horas de ires para a escola!
-Já vou, mãe. Já vou.
Absorto como estava nos seus pensamentos e nas recordações de praia do ano anterior, esquecera-se completamente que tinha de se arranjar para ir para a escola; e não gostava de chegar atrasado.
Correu para a casa de banho, tomou um chuveiro rápido, e voltou ao quarto para se vestir. Num instante estava na cozinha, preparado para tomar o pequeno-almoço. A irmã, que já acabara e estava a levantar-se da mesa, disse-lhe:
- Vê se te despachas, preguiçoso. Já é tarde. Sabes bem que a professora não gosta que cheguemos atrasados!
Apressou-se o mais que pôde: tomou rapidamente uma chávena de leite, comeu um pão com manteiga, e correu a lavar os dentes. E “num abrir e fechar de olhos” estava junto da irmã e partiram os dois a caminho da escola.
Iam felizes. Gostavam da escola. Tinham muitos amigos e aprendiam coisas bonitas.
-Bom dia! Dá licença senhora professora?
-Bom dia! Sim, entrai. Hoje o sono pesou… Estais muito atrasados.
-Senhora professora, já viu o Sol nascer?
-Já, Jorge. Já vi o Sol nascer muitas vezes e é um espetáculo da Natureza muito bonito, especialmente num dia límpido como o de hoje.
Mas a que propósito vem isso?
- Eu nunca tinha visto o sol nascer. Mas hoje acordei muito cedo e pude vê-lo nascer.
É bonito. O céu à volta do Sol fica... cor de laranja… vermelho…brilhante...
É lindo! Fiquei a olhar para o Sol e a pensar, e esqueci-me das horas.
Amanhã é que vai ser bom, senhora professora!
- Pois claro que vai ser bom. Não são bons todos os dias em que trabalhámos e aprendemos juntos? Amanhã será também um dia bom, se Deus quiser - disse a professora, que, no momento, não se lembrava da praia.
- Todos os dias são bons, senhora professora. E eu gosto muito de vir para a escola, de aprender coisas novas e de fazer os trabalhos; mas manhã começa a praia.
- Ah! Agora entendo! Tu acordaste cedo e esqueceste-te das horas porque andas a pensar na praia. Viste um Sol tão bonito e ficaste a sonhar com o dia que teremos amanhã.
- Pois foi, senhora professora.
Lembra-se daquela corda que encontrámos enterrada na areia, no ano passado?
Onde estaria presa? Se calhar estava agarrada a algum saco de droga.
- Oh!... Jorge! Que ideia! Como é que meteste isso na cabeça?
Estava muito enterrada e pronto. Não tivemos força para a desenterrar.
- Eu já ouvi dizer que, muitas vezes, descarregam os barcos nas praias, enterram a droga na areia e deixam um sinal a marcar o sítio, para mais tarde irem buscá-la. Aquela corda podia estar presa a algum saco de droga que os traficantes enterrassem ali. Pensei muito nisso, hoje, senhora Professora. E este ano vou estar bem atento a essas coisas. A droga é tão má, tão perigosa, e faz tanto mal às pessoas. O António...
O António é seu vizinho. Porta com porta. E a professora conhece-o muito bem. Andou lá na escola e era um bom rapaz, inteligente e muito bom aluno. Agora, com vinte anos, é toxicodependente e é um infeliz.
Levado por outros rapazes mais velhos, há uns anos meteu-se a experimentar coisas… coisas… Primeiro tabaco, depois outras coisas…
Até já esteve preso.
Era tão alegre, tão seu amigo: carregava-o às cavalitas, levava-o a passear de bicicleta, jogavam a bola, contava-lhe histórias...
Gostava muito dele. Agora nem chega perto. Os pais não deixam.
Tem muita pena que se tenha deixado apanhar pela droga. Detesta-a. Há-de ter bem cuidado para não se deixar apanhar por ela, quando for mais crescido. Tirou-lhe o seu grande amigo.
- Sim, o António é um infeliz que se deixou escravizar pela droga, e tenho muita pena, Jorge. Era um rapaz inteligente, que podia ser muito útil à sociedade, e anda por aí perdido.
Mas essa tua ideia...
-Não sei, senhora professora. Mas, às vezes, oiço dizer na televisão que aparece droga nas praias. E se este ano encontrarmos uma corda assim presa, que não saia, temos de contar à polícia, para que possa investigar.
-Está bem, Jorge. Se encontrarmos alguma coisa que nos pareça suspeita faremos como dizes. Tu tens razão. A droga destrói, escraviza, mata. E quando se apercebem do buraco sem fundo onde se deixaram cair, querem deixá-la, querem sair daquela escravidão e poucas vezes o conseguem. São seus escravos. A droga domina-os. Tira-lhes a vontade. Quando não a têm, não conseguem pensar em mais nada, senão na maneira de arranjarem-na. E fazem coisas que nunca fariam se fossem livres. Por isso acontecem tantos assaltos a casas, a carros, tantos roubos por esticão e outras coisas mais. A droga exige. Não lhes sai da cabeça. Precisam de muita força de vontade, de muita ajuda e de muita compreensão e firmeza da família para conseguirem libertar-se dela.
Tens razão, Jorge, todos temos de lutar contra droga. Todos.
Temos de denunciar tudo o que nos pareça suspeito.
Os traficantes usam de todos os subterfúgios, conhecem todas as manhas e agem com todas as cautelas para a introduzirem no País. E ela pode, realmente, estar enterrada na praia, sob os nossos pés.
Mas, o pior de tudo, é que a polícia investiga, procura, e só os pequenos traficantes - os desgraçados que, muitas vezes, a traficam porque também são escravos dela - são presos. Traficam-na para poderem sustentar o vício que exige ser satisfeito. E, infelizmente, só esses são apanhados e condenados.
Os grandes, os que enchem os seus cofres e engordam as suas contas bancárias no país e no estrangeiro, os que vão enriquecendo à custa da destruição de muitos dos jovens de hoje e de muitas das suas famílias, os que contribuem para que muitas crianças venham ao mundo desprotegidas - sem o amparo de um pai, ou de uma mãe, ou dos dois, nunca são apanhados. Mantêm-se na sombra. “Atiram a pedra, mas nunca mostram a mão.” Provavelmente cruzamo-nos com eles no dia-a-dia e julgamo-los pessoas muito honestas e respeitáveis. E, se calhar, quantas delas não ocuparão altos cargos na sociedade: empresários dinâmicos, pessoas “bondosas” e preocupadas com o bem-estar do seu semelhante, grandes beneméritos, capazes de contribuíram com avultadas somas param obras sociais..., e não passam de vampiros. Sugam o sangue de todos nós e vão enfraquecendo a sociedade de hoje, ao destruir-lhes as crianças e os jovens adultos que inadvertidamente se deixaram apanhar nas malhas da droga.
São eles os maiores causadores da insegurança em que vive a sociedade contemporânea. E não têm problemas de consciência. Só o dinheiro conta para eles. Dá-lhes poder. É o seu Deus e resolve-lhes todos os problemas de consciência. E, infelizmente, nesta nossa sociedade, o dinheiro compra tudo.
Tens razão, Jorge. Temos de denunciar tudo o que nos pareça suspeito. Temos de estar bem vigilantes para que todos os jovens, todos nós possamos sentir a emoção - que tu hoje sentiste - de um “Nascer do Sol” radioso, que brilhe cheio de energia e calor, em cada dia, no coração de cada um de nós.
Agora, meus meninos, cada um vai imaginar como será o dia de amanhã - o primeiro dia de praia - e construir um bonito texto.

Jeracina Gonçalves
Barcelos/Portugal