A CADEIRA MÁGICA
A pequena Margarida viu-se de repente sentada numa cadeira de penas a sobrevoar um lugar onde tudo é verde, florido, nas margens de um pequeno riacho de águas frescas e cristalinas a cantar por entre as lajes e pedregulhos do seu leito fragoso.
Flores de todas as cores crescem e florescem por todos os lados nos pequenos socalcos viçosos das margens.
Há flores amarelas, brancas, roxas, azuis, vermelhas e outras. Parece o lugar do arco-íris.
E também há passarinhos a chilrear e a esvoaçarem de arbusto em arbusto, de ramo em ramo…
Margarida olha em volta atónita e assustada. Não sabe como foi até ali. Lembra-se de estar no seu quarto a ler um livro de histórias com gravuras. Uma das ilustrações era uma águia-real, magnífica, a voar projetada num céu muito azul e transparente. Nem o menor retalho de nuvem maculava a limpidez do azul cristalino daquele céu de primavera. Era uma gravura lindíssima!
Parara de ler e ficara a olhá-la e a pensar que devia ser bom poder voar assim, livre, pelo espaço azul, sem barreiras nem muros que lhe travassem o avanço: voar… voar… Apenas voar.
Poder voar seria esplêndido! Poder ver o mundo todo de cima: as pessoas, as plantas, os rios, os montes, as estradas, as casas…
“Devem ver-se muito melhor. Mas, se calhar, ficam muito pequeninas. Se voar tão alto como esta águia, as coisas devem parecer muito pequeninas” – pensara.
E, de repente, vê-se ali, sentada naquela cadeira de penas, a navegar pelo ar como se alguma fada tivesse ouvido o anseio do seu coração e lhe tivesse concretizado o desejo.
Assustada, gritou:
-Ajudem-me! Tirem-me daqui! Quero sair daqui! Tenho medo!
Então, para tornar ainda maior o seu espanto e a sua ansiedade, a cadeira de penas falou e disse:
-Não te assustes, Margarida. Estás segura. Eu sou a Cadeira Mágica da Águia-real. Ela ouviu o teu pensamento e mandou-me para satisfazer o teu desejo.
Estou à tua disposição. É só dizeres onde queres ir e eu cumprirei as tuas ordens. Levar-te-ei onde quiseres.
Inquieta e espantada, Margarida retorquiu-lhe:
- Muito obrigada. Mas… Tu falas!? Sabes o meu nome!? – Perguntou.
- Como já te disse, sou a Cadeira Mágica da Águia-real e sei tudo sobre ti.
Antes de enviar-me para servir-te, a Águia-real informou-me sobre ti.
Sei como te chamas, do que gostas, onde vives, o que fazes… Sei tudo. Levar-te-ei aonde quiseres e responderei a todas as perguntas que queiras fazer-me.
- Como é que a Águia-real me conhece? Como é que adivinhou o meu desejo? Como soube que gostaria de voar e ver os rios, os lagos, as plantas, as montanhas, os animais… tudo, daqui de cima, do ar?
- A Águia-real é uma fada. Adivinha os pensamentos dos meninos e das meninas e gosta de ajudá-los a concretizar os seus sonhos. Tu manifestaste o desejo de voar e ela quis ajudar-te a realizar a tua aspiração.
-Então a Águia-real é boa. É amiga dos meninos e das meninas.
-A Águia-Real é, como já disse, uma Fada: uma Fada bondosa. É uma Fada-madrinha e gosta muito de ver os meninos e as meninas felizes. Ajuda-os a concretizar todos os seus desejos. Quando são desejos que não ferem nem fazem mal a ninguém.
-E não me deixas cair? Tenho medo! – Disse Margarida, ainda com algum receio, mas desejosa de poder viver aquela aventura maravilhosa.
-Não! Não te deixo cair. Não tenhas medo. Comigo estás segura. Diz-me onde queres ir e eu levar-te-ei.
Margarida animou-se; e, entusiasmada, disse:
- Quero seguir este riacho. Quero ver até onde leva a vida que carrega nas suas águas límpidas e frescas.
Desce um pouco mais. Aproxima-te mais dele para poder ver bem as flores, os passarinhos, as borboletas, as joaninhas e todos os animaizinhos que vivem e se sustentam no seu leito e nas suas margens.
E quero ver se tem peixinhos.
A Cadeira Mágica obedeceu imediatamente à vontade de Margarida. Iniciou lentamente a descida até quase poisar no chão, e ficou a planar sobre o leito e as margens do ribeiro, enquanto Margarida, feliz, batia palmas e, ia dizendo, entusiasmada:
- Olha… Olha… Que bonito! Tantas flores amarelas, brancas, cor-de-rosa, azuis…
E borboletas. Que bonitas borboletas!
Olha aquela, ali, de asas amarelas e pretas. É bem bonita!
- Não batas palmas, Margarida! Assustas as borboletas e os passarinhos. Faze-los fugir e já não poderás vê-los – proferiu a Cadeira Mágica.
Estamos na primavera – continuou - e na primavera há borboletas, flores, passarinhos a cantar…
- Eu sei. Ontem, na escola, falámos da primavera. A professora até disse que é a estação do ano em que tudo se renova e cresce. A natureza regenera-se. Enche-se de vida nova. Por isso há tantas flores, tantas borboletas, e os passarinhos andam tão contentes e atarefados a preparar os “bercinhos” para os seus filhinhos.
Primeiro põem lá os ovinhos. Dos ovinhos nascerão os seus filhinhos – disse Margarida.
- Muito bem. É isso mesmo. Na primavera toda a natureza renasce cheia de alegria, de vida e de cor – retorquiu a Cadeira Mágica.
- Gosto de ver os campos, assim bonitos e vistosos, com estes tapetes coloridos a cobrirem a terra; e gosto de ouvir os passarinhos. Cantam tão bem! Estás a ouvi-los? – Falou Margarida.
Mas a Cadeira Mágica, que estava a dar atenção ao voo e à rota a seguir, não respondeu.
Margarida insistiu:
- Estás a ouvir os passarinhos? Cantam tão bem!
-Sim. Estou a ouvi-los.
Sabes os nomes dos passarinhos que estão a cantar? – Perguntou.
-Não. Só conheço os canários e os periquitos.
O pai da minha amiga Joana tem canários e periquitos numa gaiola na marquise da cozinha – retorquiu Margarida.
-Estes nem são canários, nem periquitos.
Vês aquele ali, negro, de bico amarelo? É um melro macho. Canta muito bem. É um prazer ouvi-lo cantar logo ao amanhecer.
Ouve: este assobio repenicado é dele.
- E aqueles além com asas pretas e amarelas e cabeça vermelha, branca e preta, como se chamam? – Perguntou Margarida.
- Esses são os pintassilgos.
Os seus trinados, logo pela manhã, nos jardins do Palácio da Águia-real, encantam os meus ouvidos.
Mas há ali pardais, tentilhões, rouxinóis, …
Os rouxinóis também cantam muito bem.
Há por ali muitos passarinhos diferentes, com vozes muito diferentes que, juntas, compõem uma melodia harmoniosa e bonita. Escuta-os. É delicioso ouvi-los, não te parece? – Perguntou a Cadeira Mágica.
-Sim. Até parece que estamos numa sala de espetáculos a ouvir uma grande Orquestra – retorquiu Margarida, que costumava frequentar os concertos Promenade do Coliseu do Porto. Ao mesmo tempo mantinha o olhar perdido no riacho a descer por entre os pedregulhos do leito. Escutava atentamente a canção da água, que chegava também aos seus ouvidos, harmoniosa, pura.
E, voltando-se para a Cadeira Mágica, exclamou:
- A água do rio também canta.
-Pois canta. Entendes o que ela diz? – Retorquiu a Cadeira Mágica.
Margarida fechou os olhos por alguns momentos e pôs-se a escutar atentamente o som da água a fluir pelo leito pedregoso do rio. Depois exclamou:
-Sim. Eu sei o que a água diz. Diz assim:
Venho de cima, da serra,
Onde calmamente dormia
No seio da rocha-mãe.
Minha mãe abriu a janela
Por onde espreitei e saí.
Vi que o céu era azul
A terra cheia de luz
Quis conhecer mundo e parti.
Encontrei outras irmãs
Desejosas de aventura:
Umas, tímidas e frágeis;
Outras, afoitas e belas,
A todas fui abraçando.
Em força e em graça cresci.
Sou agora já riacho
Um lindo riacho da serra.
Outros irei encontrar
Outros irei abraçar
E outros me abraçarão.
Juntos, seremos rio
Abraçaremos outros rios
Até aos braços do mar.
-Muito bem! Entendeste bem a canção da água!
A água dos rios, depois de muito caminhar e de muitas aventuras viver, acaba a descansar no mar, que é o grande reservatório. É o grande “tanque” que recebe todas as águas que correm à superfície da Terra. – Disse a Cadeira Mágica.
Mas Margarida estava tão embebida a observar a beleza à sua volta, que nem ouviu a Cadeira Mágica. E, verbalizando o seu pensamento, disse:
- Isto aqui é muito bonito. Obrigada, por me teres trazido até aqui.
Quero conhecer este rio. Quero conhecer as suas aventuras. Quero conhecê-lo e saber como vive até se atirar nos braços do mar.
- Levar-te-ei até onde quiseres, Margarida.
- Muito Obrigada! Quero pedir-te mais uma coisa.
- Pede o que quiseres; estou aqui para te servir – retorquiu-lhe a Cadeira Mágica.
- Pois bem: Cadeira Mágica não é nome de amiga. E tu és minha amiga, não és? – Perguntou.
- Claro! Eu sou tua amiga. – Respondeu a Cadeira Mágica.
- Então vou dar-te um nome: um nome de amiga de que gosto muito. Vou chamar-te Magui. Serás a minha amiga Magui.
- Fico muito feliz por me dares um nome de amiga. Um nome especial de que gostas muito. É um privilégio para mim. Para ti serei Magui, com muito prazer – disse a Cadeira Mágica.
- Pois bem, Magui, ontem, na escola, a Professora falou-nos da poluição dos rios e do mal que a poluição faz a toda a vida na natureza. Tanto à vida das pessoas, como à vida dos animais e das plantas. Aqui a água é bem limpa e transparente e vêem-se as ervinhas do fundo do leito a dançar com os peixinhos prateados. Não há poluição. Há alegria e vida saudável. Por isso há tantas flores e tão bonitas, e tantos passarinhos e borboletas e muitos outros bichinhos. Mas ao longo de todo o seu percurso, este rio será sempre tão bonito e saudável como aqui?
A professora disse que há muitos rios poluídos, que transportam a morte aos lugares por onde passam, em vez de transportarem a vida. – Disse Margarida.
- E é verdade. Há muitos rios sujos, conspurcados com detritos de todo o género, que matam os peixinhos e agridem toda a vida em redor, incluindo a das pessoas, que, muitas vezes, adoecem por causa das águas sujas dos rios.
Vamos lá conhecer este, então. Iremos as duas conhecê-lo – respondeu Magui, a Cadeira Mágica, começando a elevar-se para tomar altitude e sobrevoar o leito do riacho em direção a jusante.
Margarida, muito atenta, vai observando o trajeto do rio por um leito fragoso, entre socalcos floridos e margens bordejadas de árvores viçosas. Muitas delas carregadas de flores. Um pouco mais abaixo salta uma enorme ravina e cai sobre um pequeno lago de fundo rochoso, muito límpido e transparente, a refletir o rendilhado das árvores das margens e o azul do céu. Logo depois abraça algumas pequenas nascentes, que escorrem de uma e da outra margem do leito a fluir por um estreito vale entre montanhas corpulentas. Segue por aí mais calmo e tranquilo entre várzeas planas e verdejantes, pintalgadas de flores brancas e amarelas; depois atravessa campos lavrados; logo a seguir, de novo irrequieto e rebelde, salta um desfiladeiro apertado e pedregoso e galga de rocha em rocha. Vindo do seu lado esquerdo, outro pequeno riacho se lhe junta, lhe engrossa a voz, e torna-o mais forte e rebelde a descer por entre margens de árvores frondosas. Até que…
- Magui! Magui! há ali uma casinha na margem. Outra mais a baixo. E outra…E outra...
Vamos vê-las, Magui? – Diz Margarida, apontando uns casinhotos em pedra rústica, a pouca distância uns dos outros, nas margens do rio.
- Aquelas casinhas foram, em tempos, moinhos de água. Agora já não funcionam. Foram substituídos por moinhos elétricos. Mas antigamente eram muito importantes na vida das populações: transformavam o milho, o centeio, o trigo, a cevada e outros grãos, e até as castanhas, em farinha para fazer pão, biscoitos, bolos... – Ia informando Magui, enquanto perdia altitude e se aproximava do primeiro moinho.
Margarida espreitou pela porta, já sem porta e disse:
- Está tudo tão velho e sujo! Olha, tem ali uma pedra redonda, grande e grossa…
- Aquela pedra circular é a mó do moinho. A mó rodava e, como era muito pesada, ia esmagando os grãos que caíam da tremonha.
- Mas aquela pedra é muito pesada, como é que rodava? – Inquiriu Margarida, espantada.
- Pela força da água. Fazia-se uma barreira no leito do rio para encaminhar a água para uma levada e fazia-se cair de alto sobre um mecanismo no poço do moinho. A força da água a cair sobre esse mecanismo fazia rodar o rodízio, que, por sua vez, fazia rodar a mó. – Informou Magui.
-Sabes tantas coisas, Magui!
Eu gostava de ver o moinho a trabalhar – proferiu a Margarida, que não estava a entender muito bem o que era o rodízio, nem com fazia rodar a mó.
- Eu sei que é difícil perceberes como funcionava, sem o veres a trabalhar; mas não é fácil encontrar um moinho que ainda funcione a água. Agora são todos elétricos – falou Magui, a Cadeira Mágica.
- Que pena… – Disse Margarida.
E logo depois:
-Vamos continuar, Magui?
A Cadeira Mágica recomeçou a elevar-se para continuar a descida do rio, que ora de uma margem, ora da outra, ia recebendo a força de pequenos ribeiros, que lhe iam engrossando a voz e a força.
Sempre muito atenta ao trajeto, Margarida viu um grande barracão muito perto da margem, numa das encostas da serra. E, como voavam bastante baixo, um cheiro desagradável entrou-lhe pelas narinas.
- Que fedor! Cheira aqui tão mal!...
Vamos ver de onde vem este cheiro desagradável, Magui?
A Cadeira Mágica diminuiu a velocidade e baixou de altitude; quanto mais se aproximavam do barracão mais desagradável era o cheiro.
- Que porcaria! – Verbalizou Margarida, ao dar-se conta de um regueiro que saia do barracão e levava dejetos diretamente para o rio. À volta um enxame de moscas e mosquitos fervilhava. O cheiro era nauseabundo.
A Cadeira Mágica levou Margarida até junto de um “janelo” aberto na parede do barracão. Ela espreitou e disse:
- Porcos! Isto é uma pocilga, Magui. Por isso este cheiro horrível e esta porcaria toda a escorrer para o rio. Esta porcaria mata o rio. Aqui não há peixes. Só há moscas e mosquitos.
Tira-me daqui. Este cheiro mata-nos. Vamos embora – Disse Margarida enojada e revoltada com o que vira.
Retomaram a viagem. Margarida observava escrupulosamente cada pedaço do trajeto. Para trás ficara a imundice e o cheiro desagradável. Pouco a pouco o rio recompunha-se e retomava o aspeto límpido e sadio: as plantas medravam, os passarinhos e as borboletas voejavam e pousavam de ramo em ramo, saudáveis e felizes, até que…
- Magui olha. Vê ali, na margem direita: pneus, fogões velhos, frigoríficos…
Isto é uma lixeira! As pessoas fazem do rio uma lixeira. Depositam nele todas as porcarias.
-Tens razão, Margarida. Não cuidam da preservação e limpeza dos cursos de água e é preciso que mudem. Precisam de aprender e terem o cuidado de não poluírem os rios. Deles se adquire água que todos os dias consumimos em nossas casas – informou a Cadeira Mágica.
- Pois é. A professora na escola já falou disso. E disse que a água que temos em casa é captada nos rios e depois de tratada é distribuída pelas casas. Se não for de boa qualidade pode provocar doenças muito graves. – Completou Margarida
-E é verdade! – Proferiu Magui.
-Margarida… Margarida… Acorda! Está na hora de te levantares para ires para a escola.
Vamos lá…, Amor!
-Oh! … mãe! Acordaste-me…
-Está na hora, filha!
-Oh! … Estava a ter um sonho tão bonito e acordaste-me, Mãe!
Andava a voar…
-Vamos, meu amor! Agora não. Agora tens de te arranjar.
Depressa. Contas-mo o teu sonho no carro.
Vai, vai arranjar-te depressa, para não chegarmos atrasadas.
Margarida saltou da cama e foi para a casa de banho arranjar-se. Não gosta de chegar tarde à escola.
In: “A CADEIRA MÁGICA E OUTRAS HISTÓRIAS”
Jeracina Gonçalves – Barcelos/Portugal/2018